Publicado em 5/07/2012 as 12:00am

Retiro ajuda meninas a enfrentar traumas de queimaduras

A sala ecoa os apelidos cruéis que perseguiram as adolescentes por anos: crosta de caranguejo, torrada queimada, pele de cobra, filha do Freddy Krueger, mutante, rosto de cicatriz. Pela primeira vez, no entanto, são as próprias vítimas de queimaduras que

A sala ecoa os apelidos cruéis que perseguiram as adolescentes por anos: crosta de caranguejo, torrada queimada, pele de cobra, filha do Freddy Krueger, mutante, rosto de cicatriz. Pela primeira vez, no entanto, são as próprias vítimas de queimaduras que estão gritando eles.

O exercício é emocionalmente doloroso, mas também dá força a adolescentes que vem de todas as partes do mundo para o Angel Faces (Rostos Angelicais, na tradução livre), um retiro anual em Corona, cidade localizada nos arredores de Los Angeles no Estado americano da Califórnia. Muitas delas perderam pais ou irmãos do desastre que desfigurou seus rostos.

O programa usa grupos de aconselhamento, artes cênicas e terapia para ajudar a curar as cicatrizes emocionais e ajudar meninas a lidar com provocações sem fim, encaradas e perguntas indesejadas. Além disso, o retiro também oferece massagens, tratamento facial, cabelereiro e maquiagem de um profissional em cosmetologia que ensina as jovens a usar produtos especiais para minimizar as cicatrizes.

Para Angela Brady, 18 anos, o dano físico e emocional é profundo. Aos três meses de vida, ela sofreu graves queimaduras quando o seu irmão, também um bebê, colocou fogo nas cortinas de casa enquanto a mãe deles estava desmaiada após sofrer uma overdose de drogas.

Os únicos fios de cabelo que lhe restam estão escondidos sob uma peruca marrom. A maquiagem substitui suas sobrancelhas ausentes. Uma série de cicatrizes cobre a parte de cima de seu rosto. Ela já passou por mais de 60 cirurgias reconstrutivas, incluindo uma em que uma de suas costelas substituiu o osso de sua testa.

"Eu tenho apenas uma foto que é de quando eu era recém-nascida e não tinha cicatrizes. Eu olho para ela de vez em quando e penso como eu poderia ter sido, mas eu não gosto de pensar sobre isso, porque não há nada que eu possa fazer e não posso mudar isso", diz Angela, que foi tirada de sua mãe biológica e adotada aos três anos. "Após chegar aqui, eu percebi que poucas pessoas são escolhidas para essa jornada, e eu sou uma delas".

A fundadora Lesia Cartelli concebeu o Angel Faces após dirigir um acampamento mais convencional para vítimas de queimadura em San Diego, na Califórnia. O acampamento focava na diversão, sem abordar o trauma debaixo das cicatrizes. Cartelli se viu frustrada com a auto piedade que fazia os participantes se virem como vítimas e nada além.

"Um dia eu vi três meninas passando na minha frente e pensei, 'eu estou falhando'", relembra Cartelli. "Elas iriam para casa no dia seguinte e, na segunda-feira, essas três adolescentes voltariam para escola, voltariam para a rejeição, voltariam a ser encaradas e ter de responder perguntas indesejadas. Elas precisam saber, 'como eu respondo a alguém que está olhando para mim? Como eu vou reconstruir minha autoestima ou consegui-la?'"

Cartelli oferece o programa de uma semana de duração para cerca de 20 meninas apenas uma vez por ano. Elas precisam preencher um formulário de 14 páginas e levantar doações para cobrir os US$ 3,5 mil em custos para que sejam levadas ao retiro em Corona. As participantes podem comparecer a até três edições seguidas e muitas delas retornam como voluntárias.

O programa está em sua nona edição e já atraiu jovens de todas as partes dos Estados Unidos e também já teve participantes do México e do Reino Unido. A maioria delas passou meses em camas de hospitais, enfrentou diversas cirurgias de reconstrução facial, mas nunca se abriram sobre os ferimentos ou falaram sobre os acidentes que lhes deixaram marcadas.

"Nós passamos os primeiros dois dias realmente escavando o trauma. Como isso aconteceu? Onde? O que acontece? Quem estava lá? Quem você precisa perdoar? É você mesma?", diz Cartelli. "Ninguém é perguntado essas questões em um ambiente amoroso. Isso é difícil. É difícil para nós vermos e é difícil para as meninas".

Durante um dos exercícios de encenação, Rosa Carrier enfrenta dificuldades para responder a um voluntário que se passa por um estranho perguntando questões indelicadas sobre os seus ferimentos do incêndio do qual foi vítima quando era criança. A jovem de 16 anos, de Bristol, no Estado do Tennessee, usa uma jaqueta de manga comprida, mesmo quando está quente, para esconder as cicatrizes nos braços. Cartelli insiste para que a jovem dê detalhes sobre o acidente para que ela transforme as provocações de um estranho em simpatia.

"Você vê como quando você muda a linguagem, você tem compaixão por aquele pequena menina? Aquela menina que era você, que foi queimando em um incêndio em casa?" Cartelli pergunta, apontando para o coração da jovem. De repente, Carrier esconde o rosto com as mãos e começa a chorar no ombro de Cartelli.

Fonte: terra.com.br