Publicado em 15/09/2013 as 12:00am

Para especialistas, um ano para desmantelar arsenal químico da Síria não é suficiente

Para especialistas, um ano para desmantelar arsenal químico da Síria não é suficiente


Um ano seria suficiente para desmantelar o arsenal químico militar da Síria, como prevê o acordo russo-americano concluído neste sábado em Genebra? Especialistas consultados pela AFP se mostram céticos.

"A destruição do arsenal químico até novembro de 2014, tendo em vista a guerra civil, me parece difícil", avalia Olivier Lepick, especialista da Fundação para a Pesquisa Estratégica, sediado em Paris.

"Isso me parece muito fantasioso. Numa situação de paz, levaria muitos anos. A Síria não tem estrutura alguma para destruir suas armas químicas. É preciso construir uma usina, que custará, sem dúvidas, centenas de milhões de dólares", explica Lepick.

O especialista lembra que nem mesmo os Estados Unidos e a Rússia conseguiram destruir seus próprios estoques (de 30.000 e 40.000 toneladas, respectivamente), apesar de terem investido bilhões de dólares desde a segunda metade dos anos 1990 para entrarem em conformidade com a Convenção de 1993.

Os Estados Unidos e a Rússia estimam que o estoque sírio seja de 1.000 toneladas. Damasco tem uma semana para entregar a lista de suas armas.

Os inspetores devem ir à Síria, em novembro, verificar o processo de desmantelamento, segundo prevê o acordo proposto por John Kerry e Sergei Lavrov, concluído neste sábado.

Os inspetores são representantes da Organização para Proibição de Armas Químicas (OIAC), que prepara "um mapa" para as missões na Síria, segundo comunicado divulgado pela organização com sede em Haia.

Líderes do acordo de Genebra, os Estados Unidos e a Rússia não podem mais controlar os prazos estabelecidos, afirma o especialista em armas químicas Jean-Pascal Zanders.

Segundo ele, as decisões serão tomadas pela OIAC, cujo conselho executivo deve se reunir na semana que vem em Haia.

"O conselho executivo é soberano na sua tomada de decisão. Os Estados Unidos e a Rússia são apenas uma voz em meio a seus 41 membros. Eu não ficarei surpreso caso não haja consenso na tomada de decisão", diz Zanders. A Síria anunciou recentemente que entraria na OIAC.

A formação de uma equipe de inspetores competentes para daqui a dois meses não será fácil, avalia o juíz David Kay, ex-funcionário de inspeção de armas no Iraque no momento da intervenção americana no país, em 2003.

"É preciso encontrar pessoas que entendam sobre a fabricação de armas químicas e seu desmantelamento. Francamente, tendo em vista minha experiência no Iraque, algumas pessoas não vão querer ir a uma zona de combate", afirmou Kay em entrevista à rede de televisão CNN.

Como destruir as armas químicas no território sírio? "Há dois grandes métodos: seja pela incineração, seja pela hidrólise (misturando água aos agentes químicos, em alta temperatura)", explica Olivier Lepick.

A transferência das armas químicas da Síria para outro país é vetada pela Convenção de 1993.

A Síria faz fronteira com um país que não ratificou a Convenção, que entrou em vigor em 1997: Israel, inimigo de Damasco, para onde uma transferência não é viável por evidentes razões políticas.

"O acordo de Genebra é um acordo diplomático que preserva os interesses dos russos e dos americanos", conclui Lepick.

Fonte: www.uol.com