Publicado em 17/09/2015 as 12:00am

ONG compra cães que iriam virar comida na Coreia do Sul

A prática, nauseante para muitos, faz parte da tradiçãoculinária de alguns países asiáticos.

Para um ocidental vivendo na Coreia do Sul, umas das coisas mais difíceis de se acostumar é com o hábito local de se comer cachorro.

A prática, nauseante para muitos, faz parte da tradiçãoculinária de alguns países asiáticos.

Mas o choque é tão grande que muitos ocidentais que vivem nesses países se tornam ativistas contra o consumo de carne de cachorro.

Esses ativistas são cada vez mais vistos em mercados da China, Vietnã e Coreia do Sul protestando contra a venda de cães para virarem comida.

Mas do outro lado estão os criadores e comerciantes de cachorros ou de sua carne, que sentem sua subsistência ameaçada. Muitos asiáticos acusam o Ocidente de hipocrisia. "Vocês comem carneiro, vaca, galinha. Então, qual a diferença?", questionam.

Mas se normalmente esse é um debate que não chega a lugar nenhum, nesta semana, ele resultou em um inusitado acordo.

Um fazendeiro libertou mais de 100 de seus cães e, em troca, os ativistas das ONGs Humane Society International e Change For Animals Foundations lhes deram dinheiro e um plano que lhe permitiria mudar de ramo de negócios.

Os cachorros foram vacinados há um mês e voarão nesta semana para a Califórnia, onde serão adotados.

O fazendeiro agora será monitorado para não voltar a vender cães para negócios envolvendo o comércio da carne do animal.

Ele também concordou em conversar com outros fazendeiros, para encorajá-los a deixar de vender cães para consumo.

As ONGs não divulgaram o valor pago ao fazendeiro nesse caso específico, mas normalmente as compensações giram em torno de US$ 2 mil a US$ 60 mil.

Porta entreaberta

"Nosso objetivo é colocar um fim na indústria de consumo de carne de cachorro na Coreia. E para isso, estamos trabalhando com os integrantes dessa indústria", diz Lola Webber, britânica fundadora do Change for Animals.

Os ativistas estão tentando abrir de vez uma porta que já está entreaberta. Isso porque à medida que os sul-coreanos estão ficando mais ricos, as atitudes e as preferências estão começando a mudar.

Animais de estimação estão ficando mais populares e, assim, a ideia de se ter um cachorro no prato está sendo menos aceita.

De um lado, há cada vez mais restaurantes e cafés "dog friendly". De outro, restaurantes que servem cães estão fechando as portas. Seul já teve 1.500 locais que vendiam esse tipo de carne - hoje, há cerca 700.

Mas comer carne de cachorro é parte da cultura local, especialmente durante o verão, quando ocorre um conhecido festival de três dias que servem pratos com esse tipo de carne.

A carne geralmente é picada e servida em um guisado. Mas, cozida por um longo tempo, é o principal ingrediente de um tônico com supostas propriedades curativas, em geral vendido em lojas próximas de hospitais.

Muitos coreanos compartilham da opinião de que ocidentais não deveriam lhes dizer como deveriam viver suas vida.

"Coreanos comem comida que se adaptam aos coreanos", dise Kin Soo-gyun, o fazendeiro que libertou os cachorros nesta semana.

Hipocrisia?

Os cães que ficam nas jaulas ficam traumatizados por verem os outros cachorros sendo mortos diante de seus olhos.

A ativista Lola Webber entende o fato de alguns coreanos chamarem os ocidentais de hipócritas. Ela é vegetariana e acredita que nenhum tipo de carne deveria ser consumida. Mas sua principal crítica à indústria de consumo de carne canina é a maneira brutal como os cães são abatidos.

No mercado de cães de Seul, eles são eletrocutados. Primeiro, o cachorro é escolhido pelo cliente. Em seguida, é colocado um eletrodo em sua boca. Se ele não morrer instantaneamente, ele recebe um segundo choque.

Os cães que ficam nas jaulas ficam traumatizados, afirma Lola, por verem os outros cachorros sendo mortos diante de seus olhos.

Tradicionalmente, os cachorros são pendurados e espancados até a morte, porque acreditava-se que a experiência de terror deixava o gosto da carne melhor.

Não está claro se torturas assim ainda ocorrem em algumas áreas.

Em Seul, os vendedores se dividem sobre o combate ao consume da carne canina.

Muitos se revoltam contra os manifestantes. Mas também há quem expresse o desejo de sair desse ramo.

"Se tivéssemos apoio financeiro, podíamos derrubar esse mercado e transformá-lo em local de venda de animais de estimação", disse um dos vendedores. "Há muito tempo eu tenho esse desejo, mas tenho que trabalhar."

Colocar um fim em toda essa indústria não será tarefa fácil. Ninguém sabe ao certo quantas fazendas de cães há no país. Algumas tem cerca de 100 animais, outros tem mais de mil cães. Invariavelmente, eles estão em gaiolas ou acorrentados, expostos ao frio e ao intenso verão sul-coreano.

Comida de macho

Comer cães também é associado à virilidade. Por isso, muitos pais levam seus filhos para comer o animal, como parte de um ritual de crescimento.

Eu conheci um grupo de sul-coreanos, todos com cerca de 30 anos, que se encontra regularmente para jantar.

A maioria deles foi levada pelo pai para comer carne canina quando eram mais novos.

Um deles comeu uma parte íntima de um cachorro, que é considerado "algo para machos". Ele conta que passou muito mal depois disso.

Os coreanos do grupo me contaram que eles não estão mais frequentando restaurantes que servem carne canina.

No último encontro, eles escolheram um local que serve baiacu. O peixe pode ser mortal se não for preparado de maneira correta - e também é considerado "comida de macho".

Vários deles disseram que não vão levar os próprios filhos no ritual de comer carne canina. Alguns estão inclusive pensando em ter cães como animais de estimação. Os tempos estão mudando.

Fonte: uol.com.br