Publicado em 30/10/2015 as 12:00am

Arábia Saudita se prepara para crucificar jovem condenado por protesto

Jovem foi condenado à morte por protestar na Arábia Saudita

Um dia desses, nossos aliados da Arábia Saudita poderão decapitar e crucificar um jovem chamado Ali al-Nimr.

Ele esgotou os recursos possíveis após a sentença judicial para esta execução macabra, por isso os guardas podem levar al-Nimr a uma praça pública e cortar sua cabeça com uma espada enquanto os espectadores zombam dele. Então, seguindo o protocolo saudita para a crucificação, eles penduram seu corpo na cruz como advertência para os outros.

A ofensa de Al-Nimr? Ele foi preso aos 17 anos por participar de protestos contra o governo. O governo disse que ele atacou policiais e se revoltou, mas a única evidência conhecida é uma confissão aparentemente extorquida sob tortura que o deixou sangrando desfigurado.

"Quando visitei meu filho pela primeira vez, não o reconheci", disse sua mãe, Nusra al-Ahmed, ao jornal "The Guardian". "Eu não sabia se aquele era realmente ou não meu filho Ali."

Al-Nimr foi recentemente transferido para o confinamento solitário como preparação para a execução. No Reino Unido, onde a sentença chamou a atenção, o secretário de relações exteriores diz que "não espera" que seja levada a cabo. Mas a família de al-Nimr teme que a execução ocorra a qualquer dia.

O sistema de justiça criminal medieval da Arábia Saudita também executa "bruxas" e aprisiona e chicoteia homossexuais.

Já é hora de termos uma discussão franca sobre a nossa aliada Arábia Saudita e o seu papel legitimando o fundamentalismo e a intolerância no mundo islâmico. Os governos ocidentais tendem a se conter nas críticas, porque eles veem a Arábia Saudita como um pilar de estabilidade em uma região turbulenta -mas não tenho certeza de que é bem assim.

A Arábia Saudita patrocinou madrassas wahhabistas em países pobres da África e da Ásia, exportando o extremismo e a intolerância.

A Arábia Saudita também exporta instabilidade com a sua brutal guerra no Iêmen, destinada a conter algo que considera como influência iraniana. Os ataques aéreos sauditas mataram milhares de pessoas, e o bloqueio dos portos tem sido ainda mais devastador. Há crianças iemenitas morrendo de fome, e 80% dos iemenitas precisam de ajuda.

Há também hipocrisia no comportamento saudita. Este é um país que condenou um britânico de 74 anos de idade a 350 chicotadas por posse de álcool (alguns relatórios britânicos dizem que ele pode ser autorizado a deixar a Arábia Saudita, após a indignação internacional), mas raramente vi tanta bebida destilada quanto nas festas em Riad com membros do governo.

Um príncipe saudita, Majed Abdulaziz al-Saud, acaba de ser detido em Los Angeles em uma mansão alugada de US$ 37 milhões (em torno de R$ 110 milhões), depois de supostamente ter bebido muito, contratado acompanhantes, usado cocaína, aterrorizado as mulheres e ameaçado matar as pessoas.

"Eu sou um príncipe", declarou ele, de acordo com uma reportagem no jornal "Los Angeles Times". "Eu faço o que quero."

A Arábia Saudita não é o inimigo, mas é um problema. Poderia fazer tanta diferença positiva no mundo islâmico, se usasse sua posição para acalmar as tensões sunitas e xiitas e para incentivar a tolerância. Por um tempo, sob o rei Abdullah, parecia que o país estava tentando fazer algumas reformas, mas agora, sob o rei Salman, tudo parou.

Com efeito, a Arábia Saudita legitima o fundamentalismo, a discriminação religiosa, a intolerância e a opressão das mulheres. As mulheres sauditas não só não podem dirigir, mas também recebem ordens de alguns clérigos para não usarem o cinto de segurança, por medo que mostrem os contornos de seus corpos.

A Arábia Saudita inflama a divisão entre sunitas e xiitas e estabelece um exemplo pernicioso de intolerância, proibindo igrejas.

Até mesmo o Irã ultimamente tem ridicularizado a Arábia Saudita por maltratar as mulheres --e quando os radicais misóginos iranianos podem reivindicar uma posição superior quanto aos direitos das mulheres, algo está errado.

Eu defendi o islã de críticos como Bill Maher que, a meu ver, demonizam a fé de 1,6 bilhão de muçulmanos porque uma pequena percentagem é de extremistas violentos. Mas cabe a nós que nos opomos a essa demonização falar contra o extremismo genuíno. Infelizmente, a Arábia Saudita é um presente para os islamofóbicos; faz muito mais danos para a reputação do islã do que qualquer cartunista blasfemador.

É verdade que muitos sauditas estão pressionando por reforma. Um jovem escritor brilhante, Raif Badawi, 31, clamou de forma eloquente pelos direitos das mulheres, por uma reforma na educação e pela liberdade de pensamento. A Arábia Saudita sentenciou-o a 10 anos de prisão, uma multa de US$ 267 mil e 1.000 chibatadas (50 de cada vez; até agora, uma sessão foi administrada).

Sua mulher, Ensaf Haidar, diz-me que a sua flagelação deve ser retomada logo após esta longa suspensão e ela teme que ele não vá sobreviver ao processo.

O governo dos EUA, em geral faz vista grossa para tudo isso, pelo menos em público, meramente expressando profunda preocupação com a sentença de crucificação enquanto ainda fornece armas para permitir o ataque saudita no Iêmen.

Isso é realpolitik. A Arábia Saudita tem petróleo e influência, e o governo Obama precisava se alinhar com a Arábia Saudita para fechar o acordo nuclear iraniano. Mas agora que esse acordo foi alcançado, será que devemos manter o silêncio?

Não é bom para nós nem para o povo saudita quando damos consentimento a um aliado que crucifica seu povo.

Fonte: theGuardian