Publicado em 9/11/2015 as 12:00am

WADA pede suspensão da Rússia de todas as competições de atletismo

Wada alega que Olimpíada de 2012 foi "sabotada"

A Agência Mundial Antidoping (WADA) pediu nesta segunda-feira a suspensão da Rússia de todas as competições de atletismo, inclusive os Jogos Olímpicos do Rio-2016, e ainda afirmou que os casos de doping que mancham o país "não poderiam ter acontecido sem consentimento do governo".

A entidade divulgou em Genebra um relatório bombástico, no qual considera que os Jogos de Londres-2012 foram "sabotados" pela presença de atletas dopados.

A WADA também pediu o banimento do esporte de cinco atletas do país, entre eles Marya Savinova, campeã olímpica dos 800 m na capital inglesa.

"As declarações de testemunhas e outras provas evidenciaram uma colaboração entre atletas, técnicos, médicos, dirigentes e agências esportivas, para fornecer de forma sistemática a atletas russos produtos dopantes, e alcançar o objetivo do Estado: produzir vencedores", denuncia o relatório.

"A investigação mostra que a aceitação da trapaça já acontece de longa data. A mentalidade da 'vitória a todo custo' é transmitida de técnico a atleta, sendo que muitos atletas acabam se tornando treinadores", enfatiza o texto.

Pouco depois da divulgação do documento, o ministro dos esportes da Rússia, Vitaly Mutko, afirmou à agência de notícias RIA Novosti que a WADA "não tem direito" de suspender o país das competições de atletismo.

A Agência antidoping do país também reagiu, alegando que as acusações do relatório são "sem fundamento".

Isso não impediu a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) de lançar oficialmente o processo de aplicação das sanções pedidos pela agência antidoping.

"As informações reveladas pela comissão de investigação da WADA são alarmantes. Precisamos de tempo para digerir e entender todos os detalhes. Mesmo assim, eu pedi ao Conselho da IAAF para lançar o processo relativo às sanções propostas contra a Federação Russa de Atletismo (ARAF)", afirmou o presidente da IAAF, Sebastian Coe, num comunicado.

Artem Patsev, advogado da ARAF, disse que as acusações são de "ordem política".

"Se esta suspensão tivesse motivações sérias, já teria sido aplicada há muito tempo", comentou.

Presidente da comissão da WADA que redigiu o relatório, Richard Pound disse em entrevista coletiva que o escândalo é tamanho que as autoridades russas deveriam retirar os atletas dos Jogos do Rio "por vontade própria", sem a necessidade de suspensão.

O relatório trata apenas de questões ligadas à Rússia e ao atletismo, mas a WADA deixou claro que "o doping organizado também atinge outros países e outros esportes".

Pound avisou, inclusive, que as conclusões de outra investigação, sobre suspeitas de corrupção de dirigentes da IAAF, devem ser sair até o fim do ano.

A Interpol, por sua vez, anunciou nesta segunda-feira, em Lyon, que vai coordenar uma investigação mundial sobre doping.

A operação recebeu o nome "Augeas", inspirado nos currais do rei Aúgias, que Hércules teve que limpar, como parte dos 12 trabalhos que lhe foram impostos na mitologia grega.

Na semana passada, o ex-presidente da Federação Internacional de Atletismo, o senegalês Lamine Diack foi indiciado pela justiça francesa por suspeitas de "corrupção passiva e lavagem de dinheiro".

Diack, que ocupou o cargo de 1999 até agosto deste ano, quando foi substituído por Coe, é acusado de ter recebido propina para encobertar casos de doping na Rússia.

No domingo, Coe disse em entrevista à AFP que ficou "surpreso" e "chocado" com a revelação do esquema de corrupção que mancha a entidade.

"Essas acusações de extorsão e chantagem surpreenderam a todos, e a grande maioria do mundo do esporte deve sentir exatamente a mesma coisa que eu: choque, raiva e tristeza", lamentou a lenda do meio-fundo, que foi bicampeão olímpico dos 1.500 m.

Perguntado sobre o tamanho da repercussão do escândalo, o britânico recusou-se a fazer comparações com outros esportes, como o futebol, abalado com as acusações que pesam sobre dirigentes da Fifa.

"Não vou fazer comparações. Minha responsabilidade é muito clara: preciso restabelecer a confiança no nosso esporte, e será um processo demorado. Não podemos fugir dos problemas. É preciso criar uma organização que saiba prestar contas, ser responsável e reativa", analisou o britânico, que foi presidente do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Londres-2012.

No sábado, Richard McLaren, um dos autores do relatório da WADA, já tinha avisado em entrevista à BBC que as revelações poderiam "abalar para sempre as estruturas do esporte".

"Existe um grupo de senhores de idade que colocaram um monte de dinheiro no bolso, por meio de extorsão e propinas, e ainda provocaram mudanças significativas nos resultados e nas classificações das competições internacionais de atletismo", explicou.

A Rússia está no olho do furacão desde que reportagens do canal alemão ARD apontaram esquemas de doping do país.

Divulgado em dezembro de 2014, o documentário 'doping confidencial, como a Rússia fabrica vencedores' conta com várias testemunhas de peso.

A WADA criou em janeiro uma comissão independente de investigação para verificar as acusações da ARD. As primeiras conclusões devem ser divulgadas no dia 17 de novembro.

A emissora alemã também é responsável por outra 'bomba' que abalou o mundo do atletismo.

Numa reportagem realizada com o jornal inglês Sunday Times, o canal trouxe à tona um estudo realizado por pesquisadores australianos, que concluiu que 33% dos 146 medalhistas em mundiais e olimpíadas entre 2001 e 2012, apresentaram têm resultados suspeitos em exame antidoping.

Fonte: terra.com.br