Publicado em 5/01/2016 as 12:00am

Último ano da gestão Obama será essencial para deixar legado

Mais do que isso, o presidente espera desafiar as expectativas.

O processo de votação para a escolha de seu sucessor começa em menos de um mês, e o presidente Barack Obama decidiu antecipar em cerca de duas semanas seu discurso sobre o Estado da União em 2016, para anunciar a agenda de seu último ano de mandato enquanto o país ainda está prestando atenção à sua figura.

 

Mais do que isso, o presidente espera desafiar as expectativas.

 

Obama ingressou no ano final de seu mandato com a determinação de se manter relevante, ainda que o centro de gravidade político esteja se transferindo para a batalha por sua sucessão.

 

Os obstáculos são sérios. A oposição controla o Congresso e pesquisas de opinião mostram dúvidas quanto à sua condução de algumas questões críticas. O megafone presidencial já não fala tão alto, e Obama terá de ponderar o impacto que seu uso terá sobre as chances de seu partido de reter a Presidência.

 

No entanto, ainda que legisladores, líderes estrangeiros e até mesmo alguns de seus assessores estejam começando a pensar no dia em que Obama deixará a Casa Branca, a experiência recente demonstra que o oitavo ano de um presidente no cargo também pode ser um período de imensa importância, no qual o ocupante do Sala Oval ainda importa —para o bem ou para o mal.

 

Quer pelas ações que empreenda, quer pelas crises que invariavelmente surgem, até mesmo um presidente em final de mandato pode ter papel considerável a desempenhar.

 

"Só temos um presidente por vez, e cabe a essa pessoa a autoridade constitucional; só ele tem autoridade constitucional", afirma Kenneth Duberstein, que foi o último chefe da Casa Civil do presidente Ronald Reagan. "O presidente continua a receber telefonemas às três da manhã".

 

EXEMPLOS PASSADOS

Durante seu oitavo ano na Presidência, Reagan assinou um acordo de livre comércio com o Canadá, garantiu a ratificação de um tratado para eliminar as armas nucleares de alcance intermediário e levou adiante a transformação do relacionamento entre os Estados Unidos e uma União Soviética em declínio.

 

O presidente Bill Clinton, por sua vez, decretou que grandes áreas do oeste do país deveriam ser zonas de proteção ambiental, colocou em vigor o Plano Colômbia para combater o ingresso de drogas vindas da América Latina e assinou leis expandindo o comércio com a África e conferindo à China o status permanente de parceiro comercial preferencial.

 

O presidente George W. Bush garantiu uma reviravolta estratégica na Guerra do Iraque e negociou um acordo para a retirada gradual das Forças Armadas norte-americanas daquele país, em três anos, plano que seu sucessor adotou, em linhas gerais.

 

Como seu predecessor, ele empregou o poder do Executivo para a conservação da ecologia, estabelecendo três vastas reservas marítimas no Oceano Pacífico a fim de preservar uma área maior que a Califórnia.

 

DESAFIOS DE OBAMA

Para Obama, mesmo que não surjam outros imprevistos, os desafios são formidáveis, e incluem a intervenção russa na Ucrânia, as provocações da China no mar do Sul da China, acima de tudo, o tumulto no Oriente Médio, onde está em curso uma guerra contra o Estado Islâmico.

 

"Existem grandes questões que o sucessor de Obama definitivamente herdará, mas o presidente precisa ser bastante assertivo no uso das alavancas do poderio norte-americano pelos próximos 12 meses", disse R. Nicholas Burns, diplomata de carreira que foi secretário-assistente de Estado no governo de George W. Bush. "Considerados esses riscos, ele terá um ano de muito trabalho".

 

Embora elogie Obama pelo acordo nuclear com o Irã e o pacto mundial de combate à mudança do clima, Burns concorda com os críticos segundo os quais o presidente vem sendo passivo demais ao lidar com o impacto sísmico da guerra civil na Síria, e que não pode se manter inerte em seu ano final de governo.

 

"Ele precisa liderar com mais efetividade e confiança no poder dos Estados Unidos, quanto à Síria", disse Burns.

 

VOLTA AO TRABALHO

Na frente doméstica, Obama, que voltou a Washington na segunda (4) após duas semanas de férias no Havaí, começa sem as vantagens de popularidade de que Reagan e Clinton desfrutavam.

 

Reagan, que se recuperou do escândalo Irã-Contras, iniciou seu ano final de mandato com índice de aprovação de 50% e em alta; Clinton, depois de sobreviver a uma tentativa de impeachment pelo escândalo com Monica Lewinsky, tinha 60% de aprovação.

 

Em contraste, Obama, de acordo com a mais recente pesquisa do jornal "The New York Times" e da rede de TV CBS, continua parado nos 44% —o que ainda é bem melhor que os 29% de que Bush desfrutava no mesmo ponto de seu segundo mandato.

 

Obama não conta com a aprovação da maioria dos norte-americanos desde as primeiras semanas de seu segundo mandato.

 

Obama reconhece que a janela para propor projetos de lei importantes está quase fechada. Assessores dizem que seu discurso sobre o Estado da União, marcado para o dia 12 de janeiro, será mais uma discussão temática das prioridades nacionais do que a usual lista de propostas, o que significa reconhecer que a chance de aprovar a maioria de suas ideias praticamente desapareceu.

 

As duas grandes áreas para possível colaboração com o Congresso sob maioria republicana são o acordo de comércio para a região Ásia-Pacífico e o projeto de lei de reforma do sistema de justiça criminal.

 

No entanto, o senador Mitch McConnell, do Kentucky, o líder republicano no Senado, sugeriu que o Congresso pode esperar para votar o acordo comercial depois do final do mandato de Obama.

 

Assim, o presidente terá de usar ao máximo os poderes do Executivo, ainda que os críticos se queixem de que ele está abusando de suas prerrogativas. Obama deu início na segunda (3) a um esforço para aumentar a regulação sobre a venda de armas, o que será seguido por um encontro com eleitores sobre o assunto, que será televisionado pela rede de notícias CNN na quinta (7).

 

CAPITAL POLÍTICO

Joel Johnson, que foi um dos principais assessores de Clinton em seu último ano na Casa Branca, disse que um presidente em final de mandato não precisa mais acumular capital político.

 

"É melhor gastar todas fichas adquiridas durante a Presidência, e gastá-las já", disse. "Você não se verá cerceado por futuras obrigações, e com isso é possível realizar muita coisa".

 

Johnson acrescentou que a oposição partidária ferrenha a um presidente começa a se atenuar no final de seu governo.

 

"As pessoas que o odeiam passam a odiá-lo menos, porque estão em busca de novos alvos", disse. "E o pessoal de dentro do partido do presidente deixa de se queixar tanto, porque começa a apreciá-lo mais".

 

Embora Obama não tenha novas eleições a enfrentar, ele não pode esquecer a política. Boa parte de sua ambição em 2016 é empregar o palanque que a Presidência lhe confere para apresentar as questões eleitorais de forma vantajosa para sua ex-secretária de Estado Hillary Clinton, a favorita a conquistar a indicação democrata.

 

Para tanto, disse Johnson, o presidente deve trabalhar para melhorar sua posição nas pesquisas de opinião pública, porque isso influencia o resultado em novembro. Não é apenas questão de unidade partidária. "Um dos melhores legados", disse, "é ser sucedido por alguém que levará adiante o seu trabalho".

Fonte: folhape.com.br - Tradução de PAULO MIGLIACCI