Publicado em 9/04/2016 as 10:00am

A virada de Ted Cruz

Esquenta disputa entre republicanos

No dia em que consolidou sua vitória nas primárias republicanas do estado americano de Wisconsin, o candidato Ted Cruz disse à plateia: “esta noite é um ponto de virada. Nós temos uma escolha, uma escolha real”. Se referia, claro, à sua batalha contra o empresário Donald Trump, que lidera a disputa que definirá o nome de oposição a concorrer à presidência dos Estados Unidos. Cruz estava otimista porque na terça-feira 5 venceu o rival por 13 pontos percentuais no estado e ganhou força numa eleição que até pouquíssimo tempo atrás parecia praticamente definida a favor de Trump, o polêmico aspirante à Casa Branca cujo discurso mistura populismo e radicalismo. “O sucesso de Trump será mais difícil depois de Wisconsin”, afirma Arnold Haiman, professor da Universidade George Washington. “Agora, pela primeira vez, sua força parece estar diminuindo.”

Nos Estados Unidos, o voto popular confere delegados para cada um dos postulantes em 50 estados. No final, quem conseguir mais representantes ganha a corrida interna da legenda e lutará para suceder Barack Obama. Na terça, Cruz ficou com 36 delegados e Trump com apenas 6. O empresário ainda está 237 à frente, mas a estratégia do segundo colocado é evitar que ele forme a maioria mínima necessária. Nesse caso os representantes ficam desobrigados de votar respeitando as urnas, e Cruz leva vantagem porque a elite republicana está majoritariamente contra Trump. O plano é arriscado, pois uma pesquisa do site Vox constatou que 55% dos entrevistados não concordam que o vencedor das primárias não seja o nomeado.

A derrocada de Trump aconteceu pela inédita junção dos três atores capazes de derrubá-lo: os doadores de campanha, a mídia conservadora e os cabeças do partido. Em meados de março, um fundo de financiamento republicano lançou uma campanha de TV mostrando atrizes lendo as frases mais cabeludas proferidas pelo empresário sobre o sexo feminino (entre elas “mulheres: você tem que tratá-las como merda”). A propaganda viralizou na internet e foi vista por mais de 3 milhões de pessoas no Youtube. Aliado a isso, Trump foi massacrado por emissoras de rádio do Wisconsin, e acabou ofendendo jornalistas publicamente em represália. Por fim, o governador do estado, Scott Walker, uma das figuras mais proeminentes da legenda, defendeu abertamente a candidatura de Cruz. Walker venceu, ali, três eleições em cinco anos, e quando o empresário resolveu atacá-lo as declarações pegaram mal perante a população local.

Sob pressão da frente tríplice, Trump viveu uma semana infernal antes da abertura das urnas, que prejudicaram muito sua imagem e certamente afetaram seu desempenho na votação. Primeiro, um assessor seu foi indiciado por agredir uma repórter. Sem ser provocado, o empresário disse ainda que grávidas que fazem aborto deveriam ser punidas (pelo que depois se desculpou, mas o estrago estava feito). Como se não bastasse, compartilhou na internet uma foto comparando a beleza de sua esposa, que é ex-modelo, com a mulher de Cruz. “Sua visão está mudando entre o eleitorado republicano”, afirma Alexander Keyssar, professor de história e políticas públicas da Universidade de Harvard. “Mas ele continua possuindo um bloco de apoiadores, e isso não está mudando.”

Aos 45 anos, Ted Cruz está longe de ser a pessoa mais amada dentro do Partido Republicano, mas nesse momento é o único que possui condições de barrar a ascensão do empresário, visto como um aventureiro nas fileiras da sigla. Filho de um pastor evangélico cubano e primeiro senador hispânico do Texas, o atual segundo, no passado, já foi muito criticado pelos líderes tradicionais da legenda. Um dos motivos é sua visão radical em relação a tópicos como as mudanças no sistema de saúde americano, os direitos dos gays e os conflitos no Oriente Médio (ele defende a “destruição absoluta” do Estado Islâmico). “Cruz é, quem sabe, o maior conservador dessa geração”, diz Haiman. “Trump é mais populista, suas posições em alguns assuntos são conservadoras, mas em outros soam mais liberais.” Apesar da reação de Cruz, o empresário está longe de estar morto. As próximas primárias serão em Nova York, seu estado natal, em 19 de abril. Trump está à frente das pesquisas, resta saber se seu carisma pessoal será capaz de superar os jogos partidários nos quais o adversário é especialista.

Fonte: istoe.com.br