Publicado em 13/12/2017 as 1:30pm

Alabama realiza eleições para senador em complicado teste para Trump e republicanos

Roy Moore, candidato do partido do presidente, é acusado de pedofilia. Isso não impediu que Trump manifestasse apoio a ele em redes sociais.

Alabama realiza eleições para senador em complicado teste para Trump e republicanos Roy Moore, candidato republicano ao Senado dos EUA (Foto AP Photo-Brynn Anderson)

Depois de semanas de escândalo, os eleitores do Alabama escolhem para o Senado nesta terça-feira (12) entre um senador republicano acusado de ter abusado de menores e um democrata que busca surpreender no estado, profundamente conservador.
A votação é considerada um teste para a popularidade de Donald Trump.

A campanha ficou centrada em Roy Moore, um ex-juiz ultraconservador que quer levar para o Senado seu ativismo religioso, mas que há um mês é acusado de delitos sexuais nos anos1970. No entanto, ele tem o apoio inquebrantável de Trump.

"O povo do Alabama vai fazer a coisa certa. Doug Jones é pró-aborto, fraco em [atuação contra] o crime, militares e [contra] imigração ilegal, ruim para portadortes de armas e contra o muro", tuitou Trump, contra o rival democrata de Moore, nesta terça.

A polêmica abriu, inclusive, um debate dentro do Partido Republicano: congressistas e figuras relevantes da formação pediram a Moore que se retirasse da disputa, mas acabaram se conformando com uma espécie de derrota, seja qual for o resultado.

O desafio político e moral dessa eleição é tanto que o ex-presidente Barack Obama se envolveu no caso na segunda-feira e convocou os eleitores a se mobilizarem a favor do candidato democrata. "A situação é grave", disse em uma mensagem gravada ao telefone, segundo a mídia local. "Não se pode ficar em casa".

Mandato-tampão

Os eleitores desse estado sulista tradicionalmente conservador irão escolher na terça-feira o seu segundo senador, em substituição a Jeff Sessions, designado secretário de Justiça no início do ano.

"Precisamos de Roy para que vote contra a imigração clandestina, por uma defesa mais forte e para proteger a segunda emenda [sobre armas de fogo] e nossos valores pró-vida [contra o aborto]", disse Trump em uma mensagem telefônica gravada.

"Roy Moore é o homem que nos falta para fazer a América grande de novo", completou.

O ex-assessor presidencial Stephen Bannon, autoproclamado guardião da revolução de Trump, desembarcou no Alabama para apoiar o candidato.

"É uma eleição nacional", disse em um comício na área rural de Midland City.

"A eleição é disputada entre o milagre Trump e o projeto de invalidação das eleições presidenciais", afirmou, estabelecendo Moore como um defensor do governo, que deve derrotar a imprensa chamada de "fake news".

"Estão tentando calar vocês", disse Bannon.

Além de rejeitar os direitos dos transgêneros e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o discurso de Moore também inclui a luta contra a imigração clandestina e uma defesa forte, duas prioridades de Trump.

Hegemonia republicana ameaçada

Até recentemente era inimaginável que um republicano corresse o risco de perder uma eleição em um estado que não dá a vitória a um senador democrata desde 1992.
No entanto, Roy Moore é diferente de qualquer republicano. As pesquisas mostram que ele não tem mais a vantagem que registrava antes do jornal "Washington Post" publicar, há um mês, as primeiras acusações de mulheres que afirmam ter sido assediadas quando eram adolescentes, nos anos 1970 e 1980.

Uma pesquisa feita na segunda-feira pela Fox News registrava a sua derrota por uma diferença de 10 pontos percentuais. Mas outra, realizada pela Emerson, dava o resultado contrário.

Apoio polêmico

Moore, de 70 anos, foi eleito duas vezes presidente da Suprema Corte do Alabama, mas foi deposto do cargo duas vezes: em 2003 por ter se recusado a retirar de um prédio oficial uma estátua de duas toneladas em homenagem aos Dez Mandamentos, e em 2016 por ter desafiado a Suprema Corte dos Estados Unidos ao recusar-se a aplicar a decisão que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Alguns líderes republicanos se distanciaram dele, pois rejeitam o extremismo religioso do ex-juiz, que é candidato ao Senado por ter vencido as disputadas primárias em agosto.

Mas o equilíbrio do Senado está em jogo e Trump deu apoio total ao "juiz Moore", como o chama, uma aliança pragmática entre o populismo econômico do presidente e o ativismo religioso do ex-magistrado.

"É chocante que um agressor sexual de menores seja apoiado pelo presidente", criticou a eleitora democrata em Birmingham, Zandy Moyo, à AFP.

Republicanos divididos

Para o estado-maior republicano em Washington, a eleição já representa uma derrota. Se Moore vencer, o partido teme ser prejudicado por associação; se ele perder, o partido também perderá a atual maioria no Senado, de 52 das 100 cadeiras.

"Roy Moore será um presente para os democratas", reconheceu o senador republicano Lindsey Graham. "Será um tema central nas eleições [legislativas] de 2018", disse à emissora CNN.

Mobilização democrata

O candidato democrata Doug Jones, um ex-procurador federal de 63 anos, é conhecido por ter conseguido a condenação de membros da Ku Klux Klan envolvidos no incêndio de uma igreja frequentada por afro-americanos em Birmingham.

Jones aumentou o número de comícios para mobilizar a base democrata, majoritariamente negra.

"Faço política há 50 anos, vi o Alabama passar de democrata a republicano e nunca imaginei que teríamos uma oportunidade como esta, e agora temos", disse à AFP Richard Mauk, um funcionário democrata local, à AFP.

O dilema republicano levará alguns a dar as costas a seu candidato, mas não necessariamente a apoiar Jones. A posição do democrata a favor do aborto é, por exemplo, um freio para muitos republicanos, que poderiam optar por eleger um terceiro candidato para salvar sua honra.

Fonte: Por France Presse