Este artigo foi elaborado com base em reportagens e entrevistas do NJ Spotlight News, NBC News, e declarações de profissionais de saúde e organizações de apoio a imigrantes.
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Crianças imigrantes enfrentam trauma e medo com aumento de operações do ICE sob governo Trump
No dia 18 de abril de 2018, Julie Flores-Castillo chegou em casa após a escola e descobriu que seu pai havia sido detido por agentes de imigração a caminho do trabalho. Ele foi levado para o Centro de Detenção de Elizabeth, onde, segundo Julie, recebeu comida estragada e ficou sem acesso à luz natural. Em menos de uma semana, foi deportado para o México.
Na época, Julie tinha apenas 14 anos e cursava o primeiro ano do ensino médio. A partir daquele momento, ela passou a dividir seu tempo entre a escola e um emprego em uma floricultura para ajudar sua mãe, que assumiu dois trabalhos para sustentar a família.
“Me senti muito isolada. Eu não sabia para onde ir ou o que fazer,” contou ela ao NJ Spotlight News. “Só sabia que precisava amadurecer e assumir uma responsabilidade grande, ajudando minha mãe.”
Hoje, Julie é organizadora de juventude no Programa de Direitos dos Imigrantes da American Friends Service Committee, em Nova Jersey, ajudando jovens de primeira geração a acessar a universidade e preencher formulários de auxílio financeiro. Mas o trauma de perder o pai continua presente — e é uma realidade que se repete para milhares de famílias imigrantes com o avanço das operações do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas) sob o segundo mandato do presidente Donald Trump.
Desde janeiro, quando reassumiu a presidência, Trump intensificou drasticamente as ações de detenção e deportação. Segundo dados federais, o número de detenções pelo ICE dobrou, as travessias na fronteira despencaram e o total de pessoas detidas ultrapassou 55 mil até o fim de junho — o maior número da história dos EUA.
E a tendência é de crescimento.
Aumento recorde de verbas para o ICE
Na semana passada, o presidente sancionou uma nova lei orçamentária que destina cerca de US$ 170 bilhões para a sua agenda anti-imigração. Desse valor, US$ 45 bilhões vão para a criação e ampliação de centros de detenção, como o Delaney Hall, em Newark, e o centro de Elizabeth — ambos operados por empresas privadas.
Outros US$ 29,85 bilhões foram reservados para operações do ICE, incluindo contratação e treinamento de novos agentes e pagamento de bônus para os funcionários. A lei também prevê o aumento do número de camas nos centros de detenção de 56 mil para mais de 100 mil.
Segundo Lauren-Brooke Eisen, diretora do Brennan Center for Justice, a nova legislação transforma o ICE na “maior agência de segurança pública do governo federal”.
‘Ansiedade constante e sofrimento emocional’
Com o avanço dessa política, o impacto psicológico sobre crianças e famílias imigrantes em Nova Jersey é profundo, afirmam especialistas em saúde mental.
“As crianças entram no meu consultório preocupadas se os pais vão estar em casa quando voltarem da escola”, afirma a Dra. María Rodríguez, fundadora do Care Counseling Center. “Mesmo quando não houve uma detenção direta, o medo por si só já causa ansiedade duradoura e sofrimento emocional.”
Rodríguez relata que muitos pais deixaram de fazer compras durante o dia, participam menos de eventos escolares ou sequer dirigem, com receio de que uma abordagem policial trivial resulte em deportação.
“Isso não é um caso isolado — é um padrão. As pessoas estão se retraindo das suas comunidades, o que gera mais isolamento, mais ansiedade e menos acesso a serviços essenciais como educação, saúde e apoio social”, explicou.
Um relatório da KFF (antiga Fundação Kaiser) de 2018 já alertava para os efeitos da deportação sobre o desempenho escolar. Muitas crianças apresentaram queda brusca nas notas, faltaram às aulas ou abandonaram atividades escolares por causa do medo e da desestrutura familiar após as operações de imigração.
Trauma infantil e transmissão geracional
A Dra. Schenike Massie-Lambert, da Escola de Medicina Osteopática de Rowan-Virtua, explicou que essas experiências são classificadas como eventos adversos na infância (ACEs) — traumas que afetam o desenvolvimento cerebral e aumentam os riscos de doenças crônicas, depressão e abuso de substâncias na vida adulta.
“O medo crônico de deportação ou presenciar a prisão de entes queridos gera sintomas de ansiedade generalizada, estresse pós-traumático e depressão — não só em crianças, mas também nos adultos ao redor delas”, disse Massie-Lambert.
Edna Urgilez, terapeuta bilíngue do Care Counseling Center, afirma que esse trauma se transmite entre gerações, muitas vezes de forma silenciosa. “As crianças crescem com medo, ansiedade e comportamentos de submissão, sem entender de onde vêm esses sentimentos. É algo que se passa nos gestos, nas emoções e até no silêncio.”
Segundo Urgilez, se o trauma não for tratado, pode comprometer a autoestima, os relacionamentos e a saúde emocional desses jovens ao longo de toda a vida.
“Não vou deixar isso me destruir”
Julie Flores-Castillo afirma que entrou em “modo de sobrevivência” após a deportação do pai. Sentia que precisava ser um exemplo para seus dois irmãos mais novos — foi quando começou a se engajar na causa imigrante.
“Eu sabia que precisava fazer alguma coisa. Não ia deixar isso me destruir, nem destruir minha família”, declarou.
Este artigo foi elaborado com base em reportagens e entrevistas do NJ Spotlight News, NBC News, e declarações de profissionais de saúde e organizações de apoio a imigrantes.




