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BT MAGAZINE

Revista Brazilian Times # 83
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Brasileira expõe conflito com marido, Senador dos EUA, após ele apoiar política de Trump sobre deportações

Casos semelhantes ocorreram em outros momentos. Em uma piscina pública, foi confundida com babá por falar com seus filhos em português.


A brasileira Gisele Fetterman, ativista e esposa do senador da Pensilvânia, John Fetterman, revelou sentir-se “de coração partido” ao ver o presidente Donald Trump intensificar seu plano de deportações em massa — especialmente após seu próprio marido manifestar apoio público ao Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, sigla em inglês).

A declaração de Gisele foi feita em entrevista à emissora pública WHYY, na qual também promoveu o lançamento de seu livro Radical Tenderness: The Value of Vulnerability in an Often Unkind World, obra em que narra sua trajetória como imigrante indocumentada e os desafios de lidar com preconceitos mesmo após obter a cidadania norte-americana.

Nascida no Brasil, Gisele chegou aos Estados Unidos com sete anos, acompanhada da mãe, com visto de turista. Ambas permaneceram no país após a expiração do visto, passando a viver em situação imigratória irregular. “Cresci com medo constante. Sabia que não podia ter as mesmas experiências que minhas amigas”, relembra no livro.

Conflito dentro de casa

O posicionamento político do marido trouxe tensão ao lar. No dia 10 de julho, o senador Fetterman escreveu na rede X (antigo Twitter): “O ICE exerce um papel importante para o nosso país. Qualquer apelo para abolir a agência é 100% inapropriado e ultrajante”.

No dia seguinte, Gisele respondeu indiretamente em entrevista. “Imigrantes contribuem muito para a sociedade. Mas, mesmo que não contribuíssem, o simples desejo de querer uma vida melhor para suas famílias já deveria ser suficiente”, afirmou.

A ativista também relembrou um encontro que teve com Trump antes da posse presidencial de 2017. Ao lado do marido, ela se reuniu com o então presidente eleito em Mar-a-Lago, com o objetivo de defender os chamados Dreamers — jovens que chegaram aos EUA na infância em situação irregular.

“Contei a ele minha história. Disse que os Dreamers não são números, são pessoas reais”, relatou. Segundo Gisele, Trump teria se mostrado receptivo: “Ele disse que concordava, que os Dreamers são norte-americanos. Disse que muitos nem falam mais a língua de seus países de origem”,

Seis anos depois, ela afirma: “O que ele disse naquela sala não se refletiu em nenhuma de suas políticas”.

Gisele em sua casa

Preconceito disfarçado e racismo explícito

Mesmo após obter o green card em 2004 e a cidadania dos Estados Unidos em 2009, Gisele continuou sendo alvo de estereótipos e discriminações. Em um episódio relatado no livro, uma convidada em sua própria casa — onde ela e o marido, então prefeito de Braddock (PA), organizavam um evento literário — a confundiu com uma funcionária da equipe de catering e ameaçou “denunciá-la” ao anfitrião, acreditando que ela estivesse bebendo em serviço.

“Eu estava de vestido de coquetel, em minha própria casa. Ainda assim, ela presumiu que eu era parte da equipe de apoio”, relembra. Gisele optou por responder com humor: “Por favor, não diga ao prefeito Fetterman. Não quero ser demitida!”, disse, antes de ser apresentada ao público como esposa do prefeito — sob o olhar constrangido da mulher.

Casos semelhantes ocorreram em outros momentos. Em uma piscina pública, foi confundida com babá por falar com seus filhos em português. Em outro, durante a pandemia, foi alvo de um ataque racista enquanto fazia compras em um supermercado da rede Aldi. Uma mulher desconhecida gritou ofensas, a acusou de “estragar o sangue” de John Fetterman e a perseguiu até o estacionamento, onde continuou com insultos e ameaças.

“Voltei a ser aquela garotinha indocumentada, com medo de ser deportada. Chorei no carro por muito tempo. Meu senso de segurança foi destruído”, escreve. Segundo ela, levou meses para retornar àquela loja. Após tomar conhecimento do ocorrido, a rede Aldi baniu a agressora de todos os seus estabelecimentos.

 Diferenças políticas e a escolha pela empatia

Além da política imigratória, o casal Fetterman também discorda publicamente em relação à guerra entre Israel e Hamas. Enquanto o senador mantém posição firme em defesa de Israel, Gisele demonstrou preocupação com a morte de crianças palestinas, conforme reportado pela New York Magazine.

Mesmo diante dos conflitos, Gisele prefere manter uma abordagem empática, sem confrontos diretos. “Não sou de respostas ácidas. Também não devo explicações a quem me olha com preconceito”, afirma. Ela diz que opta por deixar que os outros reflitam sobre seus próprios erros. “É importante que cada pessoa saia de um encontro comigo com sua dignidade preservada. Eu não carrego mais o peso de educá-las”, destacou.

Ao abrir sua história ao público, Gisele Fetterman oferece mais do que um relato pessoal. Seu livro expõe, com franqueza e delicadeza, as dores invisíveis vividas por milhões de imigrantes, ao mesmo tempo em que lança luz sobre os dilemas éticos que podem atravessar até os lares mais influentes da política norte-americana.

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