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Revista Brazilian Times # 83
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Demissões de imigrantes na saúde preocupa autoridades em Massachusetts

À medida que o envelhecimento da população aumenta a demanda por cuidados e a repressão migratória enfraquece a força de trabalho, cresce o clamor por uma reforma humanitária e funcional no sistema imigratório — antes que mais pacientes fiquem sem cuidado e mais famílias sejam separadas.


O setor de saúde e cuidados domiciliares em Massachusetts está enfrentando uma crise silenciosa, mas devastadora, impulsionada pela intensificação da repressão imigratória sob a administração Trump. A recente perda de status legal de milhares de imigrantes — muitos deles sob programas de proteção temporária — já resultou em demissões e está afetando diretamente o atendimento a idosos e pacientes em situação de vulnerabilidade.

Segundo o Home Care Alliance of Massachusetts, uma das prestadoras de serviço foi notificada pelo Departamento de Segurança Interna para verificar a documentação de centenas de auxiliares de saúde atuando sob o programa de liberdade condicional humanitária voltado a cubanos, haitianos, nicaraguenses e venezuelanos. Muitos desses trabalhadores perderam seu status legal devido a disputas judiciais ainda em andamento.

“O medo era ter que demitir centenas de funcionários”, explicou Jake Krilovich, diretor-executivo da entidade. Embora nem todos tenham sido dispensados, o impacto já é visível: uma outra empresa do setor chegou a demitir 12 auxiliares de saúde domiciliar de imediato. “Com a escassez de profissionais que enfrentamos, perder cinco ou dez trabalhadores já compromete o acesso ao cuidado”, alertou.

A situação é especialmente grave em Massachusetts, onde imigrantes representam 25% da força de trabalho na saúde — número que salta para 46% entre cuidadores domiciliares. Em áreas como Greater Boston, mais da metade dos assistentes de enfermagem são imigrantes, número destacado pela pesquisadora Jessica Santos, do Leah Zallman Center for Immigrant Health Research: “Quem vai cuidar de você?”, questionou ela durante uma manifestação diante do centro de processamento do ICE em Burlington, no dia 24.

Os efeitos da repressão já estão sendo sentidos na linha de frente do atendimento médico. Médicos relatam que imigrantes com autorizações de trabalho ainda válidas estão sendo afastados por confusões causadas por mudanças nas políticas migratórias. A incerteza e o medo geram impactos colaterais graves: pacientes estão evitando exames de câncer e, em alguns casos, deixando de acionar o 911 mesmo em emergências, temendo encontros com agentes de imigração.

O drama tem rosto e voz. Mileyda Cruz, 25 anos, é um exemplo entre tantos. Vinda de El Salvador quando ainda era bebê, ela foi criada em Worcester e vive legalmente nos EUA com status de proteção temporária (TPS, sigla em inglês), que expira no próximo ano. “Tudo o que queremos é trabalhar e viver em segurança”, disse ela, que há cinco anos trabalha como assistente médica e atualmente cursa enfermagem. Mãe de dois filhos, teme ser deportada e se ver obrigada a deixar a filha nascida nos Estados Unidos para garantir-lhe um futuro melhor. “Voltar para El Salvador seria difícil até para mim. Não quero que ela passe pelo mesmo.”

Metade de seus colegas, segundo Cruz, estão na mesma situação: com status protegidos sendo revogados. Ela integra o Comitê TPS de Massachusetts e esteve no protesto pedindo que o governo mantenha válidas as permissões de trabalho e considere estender o direito de permanência aos beneficiários do TPS, não só de El Salvador, mas de diversos países.

Para médicos, líderes comunitários e trabalhadores, a política migratória atual está desestruturando os alicerces de um sistema de saúde já sobrecarregado. “Nossos colegas, faxineiros, assistentes de enfermagem e vizinhos não sabem se o ICE estará no hospital quando chegarem ao trabalho pela manhã”, disse Anisah Hashmi, psiquiatra em residência e membro do sindicato SEIU.

À medida que o envelhecimento da população aumenta a demanda por cuidados e a repressão migratória enfraquece a força de trabalho, cresce o clamor por uma reforma humanitária e funcional no sistema imigratório — antes que mais pacientes fiquem sem cuidado e mais famílias sejam separadas.

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