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Revista Brazilian Times # 83
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Relatório alerta que práticas agressivas de imigração estão gerando trauma em crianças de famílias imigrantes nos EUA

“O que me inspira são as próprias crianças e suas famílias, que encontram formas de resistir e apoiar umas às outras mesmo nas condições mais adversas”, disse Gutierrez.

As práticas agressivas do Departamento de Imigração nos Estados Unidos (ICE, sigla em inglês) — incluindo detenções, deportações e batidas em locais de trabalho — estão causando traumas emocionais profundos em crianças imigrantes e em cidadãos norte-americanos que vivem em lares de status imigratório misto, segundo um relatório publicado por profissionais de saúde mental da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em Riverside.

O estudo, divulgado na revista Psychiatric News, classifica a atual política de imigração como uma emergência de saúde pública para milhões de crianças.

“A psiquiatria, como disciplina clínica e instituição social, não pode permanecer à margem”, afirmam os autores. “O momento atual exige uma reavaliação de como o trauma estrutural e intergeracional é diagnosticado, compreendido e tratado.”

 

Impacto nas crianças e famílias

De acordo com o relatório, crianças nascidas nos Estados Unidos em famílias mistas vivem sob constante ansiedade com a possibilidade de ver seus pais detidos ou deportados. Essa insegurança provoca efeitos duradouros em seu desenvolvimento emocional, desempenho escolar e capacidade de construir relações de confiança.

Além disso, separações familiares antes ou após a migração ampliam os riscos psicológicos. Muitas mães imigrantes sofrem traumas que limitam sua habilidade de oferecer suporte emocional aos filhos.

A doutora Lisa Fortuna, psiquiatra-chefe e presidente do Departamento de Psiquiatria e Neurociências da UCR, afirmou que os efeitos já podem ser medidos em larga escala.

“Estamos testemunhando os efeitos do medo crônico, do apego interrompido e do trauma intergeracional em escala massiva. A ameaça — ou a realidade — de separação de um cuidador transforma de maneira profunda o desenvolvimento e a saúde mental de uma criança”, disse.

 

Casos clínicos e dados comunitários

O relatório traz estudos de caso clínicos e dados de comunidades que evidenciam como o trauma atravessa gerações, sendo agravado por fatores como pobreza, discriminação e medo da repressão policial.

Os autores também apontam para novos modelos de cuidado em saúde mental, considerados mais eficazes e éticos do que intervenções tradicionais, justamente por levarem em conta os fatores sociais que moldam o sofrimento das famílias imigrantes.

 

Vivências do trauma no cotidiano

Um exemplo apresentado no estudo é o caso de “Ana”, um perfil composto a partir de diferentes experiências clínicas. A personagem fictícia reflete a ansiedade extrema de crianças que vivem o medo da deportação: evitam a escola, sentem-se inseguras até em ambientes de cuidado e, muitas vezes, precisam preparar planos de emergência em caso de separação dos pais.

Essas estratégias, embora necessárias, reforçam a sensação de instabilidade. “Até mesmo famílias que estão em processo legal de regularização vivem com medo constante, e crianças cidadãs também se sentem vulneráveis a esse sistema”, explicou Fortuna.

O coautor do estudo, Dr. Kevin Gutierrez, professor assistente de psiquiatria na UCR, acrescentou que até atos de bullying em escolas refletem o clima de hostilidade: “Atendi uma família em que os filhos eram intimidados por colegas que usavam bonés com o slogan MAGA e ameaçavam chamar o ICE. Para muitas crianças, esse tipo de ameaça não é abstrata, mas sim uma possibilidade real.”

 

Consequências de longo prazo

O relatório alerta que, se os impactos da repressão migratória não forem enfrentados, as consequências poderão incluir transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade crônica e dificuldades escolares. Esses efeitos tendem a se perpetuar por gerações.

Crianças expostas a esse ambiente de medo constante desenvolvem um sentimento de insegurança que prejudica sua capacidade de estabelecer vínculos afetivos, confiar em instituições e prosperar academicamente.

 

Chamado à ação

Os especialistas defendem que políticas públicas de imigração e saúde mental sejam articuladas de forma mais próxima, reconhecendo que decisões de enforcement têm impacto direto no bem-estar das crianças.

“Enquanto não conectarmos escolhas políticas aos resultados de saúde, especialmente no caso de crianças marginalizadas, estaremos ignorando a extensão real do problema”, afirmou Fortuna.

Gutierrez completou: “A saúde mental das crianças imigrantes é inseparável dos sistemas que moldam suas vidas. Psiquiatras precisam atuar não apenas no tratamento, mas também na defesa de políticas mais humanas.”

 

Esperança na resiliência comunitária

Apesar do quadro alarmante, os autores destacam a resiliência das comunidades imigrantes como fonte de esperança. Para eles, redes de apoio comunitário e pequenos gestos de solidariedade podem fazer diferença significativa na vida dessas crianças.

“O que me inspira são as próprias crianças e suas famílias, que encontram formas de resistir e apoiar umas às outras mesmo nas condições mais adversas”, disse Gutierrez.

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