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Revista Brazilian Times # 86
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O impacto silencioso da repressão de Trump à imigração legal: “Estou tentando não afundar”

Kim Xavier, advogada sênior da CoveyLaw — escritório especializado em imigração com sede em Nova York — passou o último ano inteiro em constante alerta, esperando que a cada sexta-feira viesse um novo anúncio capaz de afetar seus clientes.

Kim Xavier, advogada sênior da CoveyLaw — escritório especializado em imigração com sede em Nova York — passou o último ano inteiro em constante alerta, esperando que a cada sexta-feira viesse um novo anúncio capaz de afetar seus clientes.
Por isso, quando Donald Trump anunciou recentemente que pretende cobrar uma taxa de US$ 100 mil em cada solicitação de visto H-1B, a notícia não chegou a ser uma surpresa completa.
“Todos os dias é como se eu lutasse para não afundar. E toda sexta-feira eu penso: o que será agora?”, contou Xavier ao The Guardian.

Embora a maioria das manchetes foque na repressão contra imigrantes indocumentados, Xavier alerta que poucos americanos percebem o clima crescente de insegurança também entre os imigrantes legais — realidade que advogados como ela enfrentam diariamente.
“O medo constante que os imigrantes sem documentos sempre sentiram agora se espalhou por todo o sistema de imigração”, disse. “É algo novo, e muita gente ainda não compreende.”

O sistema de imigração legal dos EUA já apresentava falhas muito antes de Trump assumir a presidência. A última reforma ampla aprovada pelo Congresso ocorreu em 1986. Desde então, quem tenta imigrar legalmente enfrenta regras confusas, cotas antigas, atrasos burocráticos e outros entraves que, embora pareçam meramente administrativos, têm impacto direto sobre a vida das pessoas.

A diferença entre gerações é evidente. “Antigamente, era simples — tem gente que me diz: ‘há 30 anos, cheguei do Canadá só com uma mala e consegui o green card em três meses’. Isso não existe mais”, explicou Xavier.

Hoje, o caminho para se tornar imigrante legal é estreito e cheio de obstáculos. O status pode ser obtido por laços familiares (cônjuge, pais ou filhos cidadãos), emprego (como os portadores de visto H-1B) ou talento excepcional. Há também vias humanitárias, como asilo e refúgio, mas o governo Trump reduziu drasticamente essas possibilidades.

A administração insiste que a política de imigração tem como alvo apenas quem está ilegalmente no país.
“Estamos reforçando a aplicação das leis para remover criminosos ilegais de nossas ruas todos os dias e deixando claro: quem estiver aqui ilegalmente deve se auto-deportar ou será preso”, afirmou Tricia McLaughlin, secretária-assistente de segurança interna, em nota recente.

No entanto, o governo também estaria diminuindo a imigração legal. Um relatório da Reuters revelou que a Casa Branca pretende reduzir o número de refugiados aceitos nos EUA de 125 mil para 7.500, priorizando principalmente sul-africanos brancos.

Além disso, imigrantes com green card estão sendo investigados por infrações que antes não eram motivo de deportação. Em setembro, uma irlandesa residente no Missouri foi detida pelo ICE em Kentucky por ter emitido um cheque sem fundos de US$ 25 em 2015.

Xavier afirma que o excesso de escrutínio tem causado pânico e insegurança até entre quem vive legalmente no país há anos. “Há um medo constante de perder o status legal por causa de atrasos, erros administrativos e falta de clareza nas comunicações”, explica.

Esses atrasos no processamento de vistos e autorizações se tornaram uma das principais fontes de ansiedade. Muitos imigrantes ficam presos no país, incapazes de viajar ou planejar o futuro.
Uma de suas clientes, que aguardava a aprovação do green card, pediu uma autorização de viagem emergencial para visitar o pai que passaria por uma cirurgia cardíaca grave. Mesmo assim, o pedido foi negado. “Ela não pôde se despedir do pai”, lamenta Xavier.

Casos de negações parciais ou suspensões indefinidas também têm aumentado, obrigando advogados a lidar com uma burocracia cada vez mais imprevisível. O problema se agrava porque o processo depende da comunicação entre duas agências — o USCIS, do Departamento de Segurança Interna, e os consulados estrangeiros, subordinados ao Departamento de Estado. Essa falta de sincronia gera ainda mais atrasos.

Os atrasos podem fazer com que imigrantes percam o período de carência que garante permanência legal enquanto aguardam a renovação, o que os coloca em risco de detenção ou deportação.

Recentemente, o governo Trump concedeu a agentes do USCIS poderes policiais, incluindo o direito de realizar prisões e mandados de busca — algo inédito, segundo a ACLU, que acusa a administração de “restringir sistematicamente a imigração legal e revogar o status de pessoas regulares”.

Toda essa incerteza afeta não apenas os imigrantes, mas também empresas e empregadores.
“Não é só o Vale do Silício que sofre”, diz Xavier. “Startups, estilistas de moda sustentável, arquitetos — vários setores estão sendo prejudicados.”

As mudanças podem parecer pequenas e isoladas, mas seu efeito acumulado é devastador.
“São ajustes graduais, porém constantes, que agora acontecem em alta velocidade e quase sem visibilidade pública. Juntos, eles destroem o sistema”, afirma Xavier. “Como dizemos em espanhol, la gota que derramó el vaso — a última gota que faz o copo transbordar. Essas gotas continuam caindo, e, quando você percebe, já está submerso.”

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