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Revista Brazilian Times # 86
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Brasileiro diz que agente do ICE pisou em sua cabeça durante prisão em Vermont

O ICE não comentou as denúncias.


Um carpinteiro brasileiro passou 51 dias sob custódia das autoridades americanas, sendo transferido entre nove unidades prisionais em quatro estados, após ser detido por agentes de imigração nos Estados Unidos por estar com o visto vencido. O caso, que expõe as condições precárias e o endurecimento da política migratória sob o governo do presidente Donald Trump, ocorreu entre junho e agosto deste ano.

No final da tarde de 17 de junho, em Newport, Vermont, seis carpinteiros brasileiros encerravam o expediente em uma obra de reforma quando foram surpreendidos por oito viaturas que cercaram o local. Dezenas de agentes do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, sigla em inglês) desceram armados e ordenaram que o grupo se deitasse no chão.

“Eles pisaram em nossas cabeças, colocaram algemas e nos levaram sem explicar o motivo”, relatou Salomão Castelo Branco Borges, de 21 anos. “Fiquei com medo de qualquer movimento, porque sabia que poderiam atirar.”

Borges descobriu apenas no dia seguinte, já na delegacia de Newport, que havia sido preso por permanecer no país com um visto estudantil vencido — embora estivesse em processo de solicitação do green card.

Durante as primeiras 24 horas, ele e os colegas ficaram em uma cela sem cama, comida, água ou banheiro, tendo direito a apenas uma ligação de dois minutos. “Consegui avisar minha mãe que tinha sido preso, mas nem eu sabia o que estava acontecendo”, disse.

Transferências e condições degradantes

A partir daí, começou uma sequência de transferências que durou 51 dias e incluiu centros de detenção imigratória e penitenciárias de segurança máxima.

Em uma delas, em Berlin, no estado de New Hampshire, Borges dividiu espaço com cerca de 300 detentos condenados por crimes graves. “Vi brigas e até um homem cortar o rosto de outro com uma lâmina. Dormíamos com medo”, contou.

As refeições eram escassas — aveia no café da manhã e sopas ralas nas demais refeições. Sua família tentou enviar dinheiro para complementar a alimentação, mas o valor raramente chegava a seu destino, devido às transferências frequentes. Além disso, as comunicações eram cobradas: US$ 2 por ligação, US$ 6 por videochamada e US$ 0,25 por mensagem.

“Gastamos cerca de US$ 10 mil entre advogado, alimentação e contatos. Queríamos apenas garantir que ele tivesse um mínimo de dignidade”, afirmou Edlaine Távora, mãe do jovem.

Sistema sobrecarregado e prisões privadas

A advogada Larissa Salvador, especialista em imigração, explica que a superlotação levou o ICE a enviar imigrantes para prisões comuns e privadas. “O sistema está colapsado. O número de detenções é maior do que a capacidade de julgamento e deportação. Por isso, imigrantes são colocados em presídios de alta segurança, onde não deveriam estar”, afirmou.

Segundo o pesquisador Alvaro Lima, diretor do Instituto Diáspora Brasil, as prisões privadas se tornaram parte de uma engrenagem lucrativa. “Há um mercado dentro do sistema prisional. As famílias enviam dinheiro e, quando não podem, o imigrante trabalha por um dólar por dia para ter acesso a comida e água”, disse.

Promessa não cumprida e deportação

Durante uma audiência, Borges foi informado de que poderia ser libertado caso comprasse sua própria passagem de volta ao Brasil. Amigos e familiares arrecadaram US$ 800 para o bilhete, mas, segundo ele, os agentes não o levaram ao aeroporto. “Disseram que seria perda de tempo e fora da rota deles”, relatou.

Após novas transferências, o brasileiro foi levado ao Texas, onde permaneceu no Centro de Detenção de Port Isabel. “Passávamos frio e fome. Só recebíamos cerca de 800 mililitros de água por dia e dormíamos no chão, com cobertores finos. Não podíamos escovar os dentes nem trocar de roupa”, descreveu.

Em 7 de agosto, Borges foi deportado em um voo da Força Aérea dos Estados Unidos, que partiu de Houston com imigrantes de várias nacionalidades. O trajeto até Belo Horizonte durou cerca de 24 horas, sem alimentação ou água, segundo ele.

“Fecho os olhos e ainda vejo as celas escuras. Foi humilhante e traumático. Nunca mais quero passar por aquilo”, disse o jovem, que hoje vive com os pais e dois irmãos em Minas Gerais.

Posicionamentos oficiais

Em nota, o Consulado-Geral do Brasil em Boston confirmou ter prestado assistência consular a Borges e à sua família. O Ministério das Relações Exteriores informou que “o governo brasileiro tem atuado para garantir tratamento digno e humano a todos os brasileiros detidos nos Estados Unidos, inclusive durante os voos de repatriação”.

O ICE não comentou as denúncias.

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