Por enquanto, Isabela tenta reconstruir a vida ao lado dos filhos, longe do agressor e cercada pelo apoio de advogados e voluntários. “Quero apenas viver em paz e criar meus filhos em segurança”, disse.
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Vítima de violência doméstica é resgatada de deportação pelo ICE após intervenção do governo de Delaware
Isabela * pensava no que faria se o avião perdesse pressão no meio do voo. Olhava para a máscara de oxigênio acima da cabeça e se perguntava como alcançaria o objeto, já que suas mãos estavam algemadas a uma corrente na cintura. Presa por agentes de imigração, ela estava a caminho de um centro de detenção na Louisiana — e de um possível reencontro com o homem que quase a matou.
Dias antes, agentes do Departamento de Imigração dos Estados Unidos (ICE, sigla em inglês) haviam invadido sua casa no condado de Sussex, Delaware, durante a madrugada. Procuravam seu irmão, mas levaram Isabela, mãe de dois filhos e sem antecedentes criminais, algemada diante das crianças. Os agentes não apresentaram mandado judicial e nem perguntaram sobre sua situação migratória antes de levá-la como “prisão colateral”.
O caso gerou indignação entre defensores de direitos humanos, pois Isabela vivia legalmente nos Estados Unidos sob “ação diferida”, parte do processo de obtenção do visto U — destinado a vítimas de crimes que colaboram com a polícia. Foi justamente esse visto que ela buscava após denunciar e ajudar a prender o ex-marido, deportado em 2019 por tentativa de homicídio.
“Ela foi vítima de violência doméstica grave e ajudou a Justiça americana, mas mesmo assim o ICE ignorou seu status temporário e ordenou sua deportação”, explicou Emily Houde, advogada da Community Legal Aid Society Inc. (CLASI), organização que oferece assistência jurídica gratuita em Delaware.
A noite do crime
Em agosto de 2019, o então marido de Isabela tentou atraí-la para o beco atrás da casa. Irritado com a forma como ela havia repreendido o filho, ele a obrigou a deitar-se na cama e a esfaqueou nas costelas. O agressor fugiu e só foi capturado cinco anos depois.
Após o ataque, Isabela denunciou o crime à polícia e iniciou o processo do visto U, que permite a vítimas de crimes graves viver e trabalhar legalmente nos EUA por até quatro anos, com possibilidade de residência permanente. No entanto, o acúmulo de mais de 400 mil pedidos atrasou sua análise.
A detenção e o desaparecimento
Durante a operação do ICE, Isabela exigiu um mandado, mas os agentes arrombaram a porta, ferindo seu filho. Com armas apontadas, levaram-na para o escritório de Salisbury, Maryland. Ela foi impedida de telefonar à família ou ao advogado, e seu nome sequer apareceu no sistema de detidos da agência.
Graças a um alerta de um parente, a advogada Houde iniciou uma corrida contra o tempo para localizá-la. Descobriu que Isabela havia sido transferida de Maryland para Baltimore e, depois, para a Louisiana — um dos estados com maior número de imigrantes presos nos EUA.
As condições no centro de detenção eram precárias. Isabela descreveu colchões finos, alimentação apressada e detentos obrigados a limpar celas por US$ 1 ao dia.
A negociação e o resgate
Enquanto o ex-marido aguardava no país natal e ameaçava “acertar contas”, a equipe da procuradora-geral de Delaware, Kathy Jennings, entrou em ação. “Mandá-la de volta significaria colocá-la nas mãos do agressor”, afirmou o procurador-geral adjunto Dan Logan.
Usando contatos internos no ICE, Logan e outros representantes do governo estadual negociaram sua libertação. Após 28 dias em custódia, Isabela finalmente recebeu autorização para deixar o centro de detenção.
A encarregada de buscá-la foi Maria Mesias-Tatnall, do Departamento de Serviços Comunitários da Procuradoria de Delaware. Sem documentos, dinheiro ou telefone, Isabela seria solta no aeroporto de Monroe, Louisiana. Mesias-Tatnall embarcou no primeiro voo e a encontrou em um hotel local.
“Ela abriu a porta de pijamas, os mesmos que vestia quando foi levada. Eu disse: ‘Você está segura agora’. Ela chorou e me abraçou”, contou.
No dia seguinte, compraram roupas novas e voltaram para Delaware, onde Isabela reencontrou os filhos após um mês de separação traumática.
Um caso que expõe o sistema
Para as autoridades de Delaware, a deportação de Isabela teria sido um precedente perigoso. “Como podemos esperar que vítimas de crime colaborem com a polícia se elas correm o risco de serem deportadas?”, questionou Logan.
A Procuradoria de Delaware afirma que continuará atuando em casos semelhantes, especialmente diante do endurecimento das políticas migratórias sob o governo Trump.
Por enquanto, Isabela tenta reconstruir a vida ao lado dos filhos, longe do agressor e cercada pelo apoio de advogados e voluntários. “Quero apenas viver em paz e criar meus filhos em segurança”, disse.
*Nome fictício usado para proteger a identidade da vítima.




