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Revista Brazilian Times # 86
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Coluna Arleandra: Entre o Arquivo e a Tela: quando o cinema revisita o que a História já revelou

O filme O Agente Secreto reacende um debate urgente: o controle, o medo e a obediência como instrumentos de poder. E revela, em nova linguagem, o que a pesquisa histórica já vinha anunciando — que o autoritarismo se constrói no cotidiano.

O filme O Agente Secreto reacende um debate urgente: o controle, o medo e a obediência como instrumentos de poder. E revela, em nova linguagem, o que a pesquisa histórica já vinha anunciando — que o autoritarismo se constrói no cotidiano.

Recentemente, tenho acompanhado com grande interesse as excelentes críticas ao filme “O Agente Secreto”, uma produção que vem despertando reflexões profundas sobre vigilância, espionagem e controle ideológico — temas que, desde 2017, estudo com dedicação em minha obra O Cotidiano Repressor dos Agentes da DOPS de Pernambuco (1931–1956), publicada pela Editora CRV.

Ainda não assisti ao filme, mas estou curiosa para observar como o cinema traduz, em imagens, aquilo que nós historiadores buscamos compreender por meio dos documentos. A imagem é um recurso poderoso, que amplia a experiência do estudo histórico e ajuda a transformar o conhecimento em sensibilização. É por isso que muitos professores utilizam o cinema como instrumento de reflexão: ele dá rosto, voz e movimento ao que os arquivos muitas vezes silenciam.

Convido os leitores a assistirem ao filme e, em seguida, conhecerem também o capítulo do meu livro — um mergulho real nos bastidores da repressão política, nas rotinas dos agentes da DOPS e na linguagem burocrática que sustentou um dos períodos mais sombrios da nossa história.

Escrevo esta coluna para compartilhar uma percepção: meu trabalho de pesquisa, realizado há mais de sete anos, dialoga fortemente com as questões que o filme traz à tona hoje. A história, afinal, não é feita apenas de fatos distantes, mas de repetições sutis — estruturas que se atualizam sob novas formas e nomes.

O que o filme revela

O Agente Secreto é um thriller político denso e inquietante, sustentado pela tensão entre o dever e a consciência. O protagonista vive o dilema de quem observa os outros, mas é também observado. Há um clima de paranoia silenciosa, que lembra o peso da repressão institucional.

A força do filme está em mostrar que o controle não se exerce apenas pela violência física, mas pelo medo constante — pela burocracia do olhar que tudo registra e arquiva. Essa é justamente a chave de leitura do meu livro: o poder se manifesta nas pequenas ações, nos gestos automáticos, nos relatórios frios que, de tão repetidos, naturalizam o autoritarismo.

Um dos pontos fortes do Cotidiano Repressor da DOPS de Pernambuco foi trazer um documento criptográfado e decifrado  na tese de doutorado.

Entre a ficção e o documento

Quando analisei documentos originais da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), deparei-me com uma linguagem sem emoção — mas carregada de intenções. Cada parágrafo era um fragmento da engrenagem repressiva. O filme, com sua narrativa simbólica e estética moderna, alcança um resultado semelhante: humaniza o sistema, mostrando o homem aprisionado por sua própria obediência.

Minha pesquisa revelou que a repressão não se fazia apenas nas celas ou interrogatórios, mas nas rotinas burocráticas: fichas, ofícios, memorandos, listas. Na vigilância constante e na troca de informações entre as delegacias e os agentes. Era uma violência disfarçada de normalidade — e talvez seja por isso que tantos espectadores reconhecem no filme ecos de um passado que ainda não nos deixou completamente.

A atualidade do tema

Ver O Agente Secreto hoje é um lembrete de que precisamos revisitar o passado para compreender nossos presentes silêncios. O filme e minha obra se encontram justamente nesse ponto: ambos denunciam como a repressão se constrói a partir do hábito, e como a liberdade é sempre uma conquista frágil.

Como historiadora, mãe e mulher que transita entre a arte e a pesquisa, sinto que a História continua nos convida — não apenas a recordar, mas a reconhecer o que ainda se repete.

E talvez seja esse o papel mais bonito da arte e da memória: abrir os arquivos, sejam eles de papel ou de alma, e deixar que a verdade respire novamente.

Arleandra Ricardo

Historiadora (PUC-SP), artista plástica e escritora. Autora de “O Cotidiano Repressor dos Agentes da DOPS de Pernambuco (1931–1956)”, Editora CRV.

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