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Revista Brazilian Times # 83
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Brasileiro completa seis meses detido pelo ICE enquanto família luta para sobreviver em Massachusetts

“Contando meus dias! Papai vai voltar em breve.”


O brasileiro Thiago Bastos, um carpinteiro de 27 anos que vivia em Hyannis (Massachusetts), está há quase seis meses detido por autoridades de imigração em uma prisão federal no norte de New Hampshire. Detido desde 29 de maio — apenas 17 dias após ser preso por agentes do Departamento de Imigração (ICE, sigla em inglês) à paisana no estacionamento do Tribunal Distrital de Orleans — Bastos nunca foi condenado por nenhum crime.

Ele vivia com suas filhas, de 4 e 5 anos, sua namorada e o filho pequeno dela.

Em audiência realizada em 18 de setembro no Tribunal de Imigração de Chelmsford, a juíza Natalie Smith negou o pedido de alívio migratório apresentado pela defesa e ordenou sua deportação, segundo a advogada Selenia Destefani, do escritório Nova Law Group, que já recorreu da decisão. Bastos também havia iniciado um processo para obtenção do green card em janeiro, ainda em andamento. “Esse tipo de solicitação pode levar até quatro anos”, explicou Destefani.

Enquanto aguarda a decisão judicial, a família de Bastos tenta sobreviver à distância e lidar com o impacto emocional e financeiro da sua ausência. Sua companheira, Utória de Oliveira, precisou deixar o apartamento em Hyannis onde morava com o filho do casal e as duas filhas de Bastos, de um relacionamento anterior, por não conseguir pagar o aluguel sem a renda do companheiro.

As crianças, Layla (6 anos), Nalah (5) e Elijah (3), todas cidadãs norte-americanas, agora vivem separadas. As meninas estão com a avó, Nara Pfleger, em Brewster, enquanto Utória mora temporariamente com o filho em um quarto emprestado em Hyannis. Após o divórcio, Bastos possuía guarda compartilhada das filhas e havia solicitado a guarda definitiva poucos dias antes de ser detido — pedido que ficou suspenso por sua ausência.

Bastos responde a um processo por suposta direção sob influência de álcool, ocorrido em 10 de maio, na Rota 6. Ele compareceu ao tribunal para se declarar inocente, mas desde então não pôde participar de novas audiências — nem presencialmente, nem por videoconferência — devido à custódia federal.

Seu advogado, Thomas Rugo, pediu a anulação das acusações estaduais, alegando violação do direito constitucional de Bastos a um julgamento justo e célere. Uma nova audiência sobre o caso está marcada para 19 de novembro, em Orleans.

De dentro do Federal Correctional Institution (FCI) de Berlin, New Hampshire, Bastos relatou condições precárias. Ele afirmou que mais de 100 pessoas estão detidas por motivos migratórios, muitas dividindo celas de 1,5 por 3 metros. “Nos colocam do lado de fora mesmo quando está congelando”, contou. “Estamos de Crocs e camiseta.”

Segundo dados oficiais do ICE, a prisão mantém em média 134 detidos por dia, sendo menos de 25% classificados como “criminosos”. A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) de New Hampshire já havia expressado preocupação com as condições do local.

Em uma carta endereçada à companheira e ao filho, Bastos desenhou a vista da pequena janela de sua cela — cercada por arame farpado e refletores — e escreveu:

“Contando meus dias! Papai vai voltar em breve.”

 

“Um pilar da família”

A defesa sustenta que Bastos se enquadra na categoria de imigrantes que vivem há mais de dez anos no país e possuem familiares cidadãos americanos que sofreriam “dificuldades extremas e incomuns” com sua deportação. Ainda assim, a juíza negou o pedido com base em um boletim policial.

O irmão de Bastos, Jonathan Bastos Ferreira, de 16 anos, enviou uma carta à juíza pedindo compaixão: “Não consigo imaginar o que os filhos dele passariam se fossem separados do pai. Thiago é um pilar em nossa família.”

Desde a prisão, a vida de Utória e das crianças virou de cabeça para baixo. Sem renda, ela depende de ajuda de parentes e de benefícios sociais para cuidar do filho. Nos fins de semana, todos se reúnem na Comunidade Evangélica do Cape Cod, em Yarmouth, onde encontram conforto espiritual.

“Deus e as crianças são tudo o que tenho agora”, disse ela.

Nara Pfleger, que trabalha como cuidadora, assumiu também o papel de mãe e avó. “Eu faço as tranças delas todo dia antes da escola”, contou, segurando os desenhos que as netas enviaram ao pai. “A Layla escreveu ‘I love you’ sozinha, porque queria mostrar que já sabe escrever.”

Apesar de tentar explicar a ausência do pai, Pfleger se emociona ao lembrar das perguntas das meninas: “Elas perguntam quando o pai vai voltar. Eu só consigo dizer: ‘Filha, o papai não pode estar com vocês agora. Mas eu estou aqui, cuidando de vocês até ele voltar.’”

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