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Revista Brazilian Times # 86
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Famílias deixam escolas da Flórida com medo de operações do ICE e deportações

O medo das operações de imigração nas escolas públicas da Flórida está levando milhares de famílias imigrantes a abandonar o estado.

O medo das operações de imigração nas escolas públicas da Flórida está levando milhares de famílias imigrantes a abandonar o estado. Desde que o governo Trump revogou, em janeiro, as regras que impediam ações do Departamento de Imigração e Controle de Alfândega (ICE, sigla em inglês) em locais considerados “sensíveis”, como escolas e igrejas, distritos escolares vêm registrando quedas expressivas na matrícula de alunos — especialmente entre crianças de famílias imigrantes.

Um dos exemplos é o de Alex Rodriguez Silva, cidadão americano de 40 anos, que deixou sua casa em Hialeah, no sul da Flórida, e se mudou com a família para Denver, Colorado, após três anos vivendo no estado.

“Não aguentávamos mais o medo constante de que um de nós fosse levado pelo ICE”, contou Silva, em entrevista traduzida do português. “Queríamos ficar na Flórida, onde construímos nossa vida, mas meus filhos merecem um lugar onde se sintam seguros e bem-vindos.”

Silva é noivo de Ana, brasileira que chegou aos Estados Unidos em 2009 e permaneceu após o vencimento do visto de turista. Ela tem uma filha de um relacionamento anterior, também sem status migratório, e o casal tem um filho americano. Quando o governo federal derrubou a proteção que impedia ações de imigração em escolas, eles decidiram não matricular os filhos no sistema público da Flórida neste ano letivo.

Efeito imediato nas escolas

O impacto foi sentido rapidamente. Em Orange County, o distrito escolar registrou uma redução de 6.600 alunos, mais que o dobro do previsto. A maioria das desistências veio de famílias imigrantes, segundo a integrante do conselho escolar Stephanie Vanos.

“Permitir ações de imigração perto das escolas cria uma cultura de medo entre as famílias imigrantes”, afirmou. “Isso reforça a narrativa de que pessoas não brancas não pertencem aqui.”

Em Broward County, o número de estudantes caiu em 11.300, e em Miami-Dade County, a redução ultrapassou 13.000 matrículas — quase três vezes mais que o previsto pelas autoridades locais.

Embora não haja relatos confirmados de batidas do ICE dentro de escolas, agentes federais foram vistos em estacionamentos e áreas próximas a unidades de ensino, o que tem sido suficiente para espalhar o pânico. Em abril, o superintendente de Los Angeles, Alberto Carvalho — que comandou o sistema de ensino de Miami-Dade por 14 anos — revelou que agentes de imigração tentaram entrar em duas escolas na Califórnia, mas foram impedidos.

“É perturbador que tantos alunos não estejam vindo para a escola”, disse Vanos. “Não sabemos se estão estudando em outro lugar — ou se simplesmente deixaram de estudar.”

Clima de insegurança generalizado

A presidente do conselho escolar de Broward, Debbi Hixon, afirmou que, mesmo sem operações diretas, o medo é real: “Os alunos deveriam se sentir seguros nas escolas, mas não é o que acontece. Vivemos em um mundo com treinamentos mensais contra atiradores. Adicionar o medo da imigração a essa realidade é desolador. Isso parece muito pouco americano.”

Em Miami-Dade, o superintendente José Dotres evitou atribuir diretamente o declínio à imigração, apontando também o crescimento das escolas charter. Mesmo assim, membros do conselho, como Luisa Santos, destacam que o número de estudantes vindos de outros estados caiu drasticamente — de 20 mil em 2020 para menos de 2 mil neste ano.

“Os dados mostram uma tendência clara de medo e desconfiança. Há o temor de que, a qualquer momento, agentes entrem na escola e separem famílias”, afirmou Santos.

O impacto humano

Entre os casos que mais abalaram o sistema educacional está o do professor Wualner Sauceda, de Hialeah, que foi deportado para Honduras em janeiro. Ele havia chegado aos EUA ainda criança e possuía status do programa DACA (Ação Diferida para Chegadas na Infância). Sua deportação gerou comoção entre alunos e colegas.

“Quando um professor querido pela comunidade é detido e deportado, isso pesa na mente dos alunos”, disse Andrew Spar, presidente da Associação de Educação da Flórida. “Se até um educador pode ser levado, que proteção resta para as famílias?”

Para Silva e Ana, o medo atingiu o limite quando o filho mais velho começou a chorar todos os dias antes de entrar na escola, pedindo que o pai — e não a mãe — o levasse, por receio de vê-la ser detida. “Tudo o que ela queria era viver momentos simples com nossos filhos, mas ela é latina, fala com sotaque, e por isso vira alvo fácil”, lamentou Silva.

Mesmo longe da Flórida, ele diz que o medo persiste. “A vida que eu deveria estar aproveitando com minha família está passando diante de mim. Cada momento é ofuscado pelo medo de perdê-los — de ver minha noiva ser presa no supermercado ou meu filho ser tirado da sala de aula. Eu vivo com medo de perder minha família.”

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