Estratégia para concorrer onde o partido não aparece na urna
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Brasileira ligada ao Partido Comunista é eleita para o conselho escolar em Cambridge (MA)
Depois de quatro décadas fora das disputas eleitorais, o Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) retornou oficialmente às urnas — e já obteve resultados expressivos. Três candidatos apoiados pela legenda venceram as eleições municipais de 4 de novembro em Maine, Massachusetts e no interior do estado de Nova York. O número é o dobro do total de membros declarados do partido eleitos em mais de um século de existência.
Fundado em 1919, após a Revolução Russa, o CPUSA mantém posições tradicionais do marxismo-leninismo. A legenda defende um sistema de partido único e afirma que o capitalismo deve ser substituído “fundamentalmente”, segundo o co-presidente Joe Sims. Em entrevista recente ao programa “The Daily Show”, Sims classificou o capitalismo como “distasteful” e se distanciou dos Socialistas Democráticos da América (DSA), grupo ao qual pertence o prefeito eleito de Nova York, Zohran Mamdani. Para ele, os socialistas atuam como “reformistas”, enquanto o CPUSA rejeita a possibilidade de reformar o Partido Democrata.
Vitórias discretas em eleições locais
Em Bangor, no Maine, Daniel Carson conquistou uma das três vagas para o conselho municipal. Em Cambridge, Massachusetts, a brasileira Luisa de Paula Santos foi eleita para o conselho escolar, sendo identificada pela própria legenda como integrante do CPUSA. Já em Ithaca, no estado de Nova York, Hannah Shvets, 20 anos, garantiu um assento no Conselho Comum, defendendo políticas como habitação mais densa, reparações para a população negra, manutenção do status de cidade santuário e regras mais flexíveis para abrigos de pessoas em situação de rua.
Especialistas afirmam que o avanço comunista ocorre em um ambiente marcado pelo engajamento político de jovens, especialmente em cidades universitárias. Para Benjamin Powell, professor de economia da Texas Tech University, muitos simpatizantes enxergam o socialismo como uma ideia moral de justiça e igualdade, sem necessariamente compreender a definição econômica clássica do termo.
Ele também ressalta que as candidaturas de extrema esquerda tendem a ser mais bem recebidas em eleições municipais: “Eles são menos assustadores no nível local do que no nacional”.
Estratégia para concorrer onde o partido não aparece na urna
O retorno do CPUSA às disputas foi anunciado em 2021, com uma estratégia clara: focar em eleições municipais não partidárias, nas quais os candidatos aparecem sem identificação partidária na cédula. Segundo analistas, isso facilita a eleição de nomes ligados ao partido em locais onde o público não acompanha de perto a política local.
Nesse mesmo ano, o veterano do Exército Steven Estrada se tornou o primeiro candidato abertamente comunista desde 1984 a disputar um cargo na Califórnia. Ele não foi eleito, mas voltou às manchetes ao declarar apoio à China e ao afirmar que o país representa o “próximo passo na evolução” do marxismo.
Estrada, que posteriormente deixou o CPUSA, reclamou da aproximação da legenda com o Partido Democrata e da postura crítica contra o presidente Donald Trump. Para ele, o movimento Make America Great Again (MAGA) expressa “a vontade política genuína da classe trabalhadora”. Ele diz acreditar que comunistas deveriam aprender com o fenômeno político representado por Trump, e não atacá-lo.
Apesar das recentes vitórias, a direção nacional do CPUSA — liderada por Joe Sims e Rossana Cambron — não concedeu entrevistas sobre o desempenho eleitoral. Os três candidatos eleitos também não responderam às solicitações de imprensa.
A BRASILEIRA
Luisa de Paula Santos é imigrante brasileira, vive em Massachusetts há mais de uma década. Ela trabalha como paraprofissional da educação — atualmente no programa “Adapt, Include, Motivate” em escolas públicas de Somerville, atendendo alunos no espectro autista.
Antes, trabalhou na escola pública Fletcher Maynard Academy em Cambridge.
A sua trajetória de dentro da escola — participando de negociações sindicais, acompanhando decisões da comissão escolar e observando desigualdades entre comunidade e política educacional — motivou-a a concorrer.
Suas pautas incluem: fortalecer a participação da comunidade nas decisões escolares; promover justiça restaurativa no sistema disciplinar; reduzir desigualdades entre alunos pobres / alunos com deficiência / minorias; ampliar recursos para educação especial; repensar o sistema de “school choice” (distribuição dos alunos nas escolas) que, segundo ela, acaba reproduzindo segregação socioeconômica.




