Para os críticos, trata-se de um uso indevido de símbolos sagrados. Enquanto o Natal se aproxima, os presépios-protesto permanecem como símbolo de uma discussão que vai além da decoração religiosa, tocando em temas centrais de fé, compaixão e responsabilidade social nos Estados Unidos.
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Presépios viram protesto contra ações de imigração e dividem igrejas nos EUA
Igrejas nos estados de Illinois e Massachusetts transformaram presépios tradicionais em manifestações simbólicas contra a atuação do governo federal na área de imigração, provocando uma intensa controvérsia entre fiéis, líderes religiosos e a opinião pública. As encenações, que associam a Sagrada Família a imagens de detenções feitas pelo Departamento de Imigração (ICE, sigla em inglês), reacenderam o debate sobre os limites entre fé, arte sacra e posicionamento político.
O caso ganhou destaque no início de dezembro de 2025, quando a Lake Street Church, em Evanston, Illinois, apresentou um presépio não convencional. A cena mostrava o menino Jesus deitado na manjedoura, envolto em um cobertor térmico e com os pulsos presos por abraçadeiras plásticas. Maria aparecia usando uma máscara de gás, enquanto figuras de soldados romanos vestiam coletes táticos identificados com a sigla “ICE”.
Para o pastor sênior da igreja, reverendo Michael Woolf, o objetivo era usar o período do Natal — quando os presépios costumam ocupar espaços públicos — para transmitir uma mensagem relevante à comunidade.
A iniciativa não foi isolada. Em outra congregação da região de Chicago, a Urban Village Church exibiu um aviso ao lado do presépio informando que, “devido à atividade do ICE na comunidade, a Sagrada Família está escondida”. Segundo líderes da igreja, a intenção foi relacionar a narrativa bíblica — que retrata a fuga da Sagrada Família — à realidade vivida hoje por famílias de imigrantes. “Queríamos refletir a realidade que nossa comunidade está enfrentando”, afirmou a pastora associada Jillian Westerfield.
Em Massachusetts, a polêmica se intensificou na paróquia de St. Susanna, em Dedham. Neste ano, o presépio foi montado sem a imagem do menino Jesus, substituída por um cartaz com a frase “ICE esteve aqui”. A paróquia já havia utilizado o presépio em anos anteriores para criticar temas sociais, como a separação de famílias na fronteira durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump e questões ambientais.
A reação da Arquidiocese de Boston foi imediata. O arcebispo Richard Henning determinou que o presépio fosse “restaurado ao seu propósito sagrado”, argumentando que fiéis têm o direito de encontrar na igreja um espaço de oração, não de mensagens políticas divisivas. Até meados de dezembro, o pároco local buscava diálogo com a arquidiocese. Setores mais conservadores chegaram a pedir sua remoção, classificando a iniciativa como um escândalo para a Igreja Católica.
Apesar das críticas, defensores das encenações afirmam que não se trata de provocação gratuita, mas de um gesto de compaixão e conscientização. Integrantes do conselho paroquial de St. Susanna ressaltam o trabalho contínuo da igreja no apoio a refugiados e imigrantes. Para eles, a controvérsia revela mais indignação com símbolos do que com o sofrimento real de famílias afetadas pelas ações de imigração.
O debate ocorre em um contexto de intensificação das operações do ICE. Somente em setembro de 2025, ao menos 2 mil pessoas foram detidas em Illinois e Massachusetts, segundo dados federais citados pela Associated Press. As operações deixaram comunidades em estado de alerta, com relatos de crianças traumatizadas e moradores afetados por ações realizadas em locais públicos.
As reações extrapolaram os limites das igrejas. Em Illinois, voluntários de uma sinagoga próxima se mobilizaram para oferecer apoio e segurança durante os cultos. Em Massachusetts, fiéis e moradores se dividiram entre críticas — alegando que igrejas com isenção fiscal não deveriam se envolver em política — e manifestações de apoio, defendendo que tempos considerados “anormais” exigem respostas igualmente contundentes das instituições religiosas.
A controvérsia expôs uma questão mais ampla: qual deve ser o papel das igrejas no debate público em uma sociedade polarizada? Para os idealizadores dos presépios, o uso de imagens fortes busca provocar reflexão e diálogo. Para os críticos, trata-se de um uso indevido de símbolos sagrados. Enquanto o Natal se aproxima, os presépios-protesto permanecem como símbolo de uma discussão que vai além da decoração religiosa, tocando em temas centrais de fé, compaixão e responsabilidade social nos Estados Unidos.
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