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BT MAGAZINE

Revista Brazilian Times # 83
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Conheça a história da brasileira que viveu 11 meses em situação irregular nos EUA e decidiu pedir retorno voluntário ao Brasil

Para ela, a principal lição deixada pelos 11 meses em solo americano é dura e direta


O que começou como uma viagem de férias transformou-se em uma experiência marcada por medo, precariedade e adoecimento. A advogada brasileira Lilian Divina Leite passou 11 meses vivendo de forma irregular nos Estados Unidos, trabalhando como faxineira e doando plasma para sobreviver, até tomar uma decisão rara entre imigrantes indocumentados: solicitar a própria deportação para retornar “viva e bem” ao Brasil, diante do endurecimento das políticas migratórias com o retorno de Donald Trump à Presidência.

Lilian desembarcou em Miami (Flórida) em 7 de agosto de 2024, com passagem de volta comprada e poucos recursos financeiros. Após alguns dias na cidade, seguiu para Orlando, onde realizou o sonho de visitar a Disney. Ainda dentro do período legal como turista, decidiu não retornar ao Brasil e estender a permanência no país — uma escolha impulsiva que deu início a quase um ano de vida fora do status migratório regular.

Depois da Flórida, passou por Nova York e seguiu para Charlotte, na Carolina do Norte, decisão que, segundo ela, foi motivada por orientação espiritual. Sem rede de apoio estruturada, sem domínio do sistema local e com um diploma sem validade prática nos EUA, recorreu às redes sociais oferecendo-se para qualquer tipo de trabalho. Assim, foi absorvida pelo circuito informal enfrentado por milhares de imigrantes: faxinas mal remuneradas, jornadas exaustivas e ausência total de garantias.

Em Charlotte, conseguiu trabalho por meio de contatos em uma igreja e passou a viver em quartos alugados por brasileiros. Inicialmente, recebeu cerca de US$ 30 por um dia inteiro de limpeza — valor muito abaixo do praticado no mercado. Segundo ela, empregadores se aproveitam da vulnerabilidade de recém-chegados, que aceitam quase qualquer condição para sobreviver.

Quando o trabalho escasseava, Lilian recorria à doação de plasma em centros de saúde, utilizava cupons para comprar alimentos e dependia de doações e ajuda pontual de instituições religiosas. “Não havia espaço para orgulho ou vergonha”, relata. O objetivo era garantir o básico: comida, aluguel de um quarto e alguma autonomia, mesmo vivendo à margem da legalidade.

Com o passar dos meses, o impacto físico e emocional tornou-se evidente. Lilian desenvolveu hipertensão e descobriu ter endometriose, problemas de saúde que exigem acompanhamento médico em um sistema caro e pouco acessível para quem não tem status legal. O desgaste físico, somado à instabilidade constante, aprofundou o esgotamento.

Paralelamente, o cenário político se agravava. Com o retorno de Donald Trump ao governo, a retórica e as ações contra imigrantes voltaram ao centro da agenda federal. Relatos de abordagens e detenções, inclusive de pessoas com documentação em ordem, passaram a circular entre comunidades brasileiras, alimentando um clima generalizado de medo. Para Lilian, a percepção era clara: ninguém estava completamente seguro.

Durante parte do período, ela viveu em Matthews, cidade da região de Charlotte com forte presença brasileira. Pagava cerca de US$ 750 por um quarto simples em uma casa compartilhada. Apesar de alguma estabilidade, o ambiente era marcado por tensão constante. Conflitos banais entre vizinhos ou familiares vinham acompanhados da ameaça de denúncias às autoridades migratórias. Lilian relata ter presenciado uma mulher passar mal dentro do carro ao saber que o marido poderia ser denunciado, mesmo após mais de 20 anos nos EUA, pagando impostos e com filhos americanos.

Nesse contexto, a brasileira concluiu que permanecer significava aceitar o risco real de ser detida a qualquer momento. Diferentemente da maioria dos imigrantes indocumentados, que evitam qualquer contato com autoridades, ela decidiu acionar o sistema e solicitar o retorno voluntário por meio de um programa oficial. A iniciativa prevê a emissão da passagem pela própria estrutura do programa e um auxílio financeiro liberado somente após a chegada ao país de origem.

A decisão foi tomada quando Lilian já se sentia cansada, doente e psicologicamente fragilizada. Para ela, insistir em permanecer poderia resultar em prisão ou em uma deportação forçada em condições ainda mais traumáticas.

De volta ao Brasil, o impacto emocional só ficou evidente com o tempo. Em São Paulo, ao ouvir uma sirene enquanto entrava em um ônibus com o filho, reagiu de forma instintiva, como se estivesse prestes a ser presa. Foi nesse momento, segundo relata, que percebeu ter vivido por meses em estado permanente de alerta, temendo mais a prisão do que a própria deportação.

Hoje, Lilian afirma que repetiria a experiência pelo aprendizado, mas deixa claro que não desejaria viver nos Estados Unidos sob o atual cenário político. Com forte formação religiosa, interpreta a trajetória como um processo espiritual, ao mesmo tempo em que questiona a narrativa de parte de seus conterrâneos que veem o presidente Donald Trump como uma figura “protegida por Deus”, apesar do ambiente de hostilidade enfrentado por imigrantes.

Para ela, a principal lição deixada pelos 11 meses em solo americano é dura e direta: em determinados lugares, a liberdade não é um direito garantido, mas um privilégio frágil — que pode desaparecer a qualquer momento para quem não carrega o documento certo no bolso.

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