O que dói, sobretudo, é a reação ao diagnóstico. Apontar a ferida virou pecado maior do que infeccioná-la.
Publicidade
Coluna SporTotal by Roberto Vieira
Corinthians: Mão na bola, mão na taça!
Quando a arbitragem vira coadjuvante, a credibilidade do futebol paga a conta

O título do Corinthians na Copa do Brasil reflete, de forma quase didática, a inversão de valores que se consolidou no Brasil e que, inevitavelmente, transbordou para dentro dos gramados. O futebol, longe de ser uma bolha isolada, apenas reproduz a lógica de um país onde o errado frequentemente vence, o certo precisa se explicar e a regra vale apenas quando convém.
O que dói, sobretudo, é a reação ao diagnóstico. Apontar a ferida virou pecado maior do que infeccioná-la. Quem questiona o processo é rotulado; quem exige coerência é caricaturado. O jornalista como eu que se recusa a tratar o absurdo como “polêmica interpretativa” passa a ser o problema, nunca o fato. A inversão é tão perfeita que o erro ganha defesa organizada, enquanto a crítica precisa pedir licença para existir. A indignação só é aceita quando vem do lado certo da arquibancada. Não é clubismo apontar inconsistências; clubismo é fingir que elas não existem quando favorecem os nossos. O resto é barulho para tentar calar quem insiste em chamar as coisas pelo nome.

A campanha que levou o Corinthians ao título não pode ser analisada apenas pelo placar final ou pela taça levantada. Ela precisa ser entendida pelo caminho. E esse caminho passou por um episódio emblemático: a eliminação do Cruzeiro no Mineirão, marcada por um gol ilegal validado sem constrangimento. Um gol de mão claro, frontal, fora de qualquer zona cinzenta da regra. O árbitro ignorou. O VAR se omitiu. O sistema como sempre diz, segue o jogo.
No jogo da volta, o Cruzeiro venceu por 2 a 1 no tempo normal, resultado que lhe daria a classificação se o primeiro confronto não tivesse sido contaminado por uma ilegalidade nunca corrigida. Forçado aos pênaltis, foi eliminado. Não por incompetência esportiva, mas porque o erro inicial foi institucionalizado e transformado em vantagem competitiva.
Esse é o ponto central: não se trata de falha humana pontual. Trata-se de normalização. Quando a tecnologia existe, o recurso existe e ainda assim nada é feito, o erro deixa de ser acidente e passa a ser escolha. E quando a escolha não gera consequência, ela vira regra informal do jogo.
No Brasil contemporâneo, a inversão de valores se manifesta assim: quem aponta o erro é taxado de chorão; quem se beneficia é celebrado como vencedor; quem exige justiça é acusado de “politizar” o debate. O futebol absorveu essa lógica com perfeição. O resultado vale mais que o processo. A taça apaga o caminho. A narrativa substitui o fato.
O Corinthians venceu a final jogando por uma bola, com experiência e oportunismo. Isso, isoladamente, faz parte do futebol. O problema é que essa bola decisiva só esteve disponível porque o percurso até a decisão foi moldado por uma distorção grave jamais corrigida. O título não nasce apenas no Maracanã. Ele nasce no momento em que a regra foi rasgada e o sistema escolheu não agir.
O futebol brasileiro já foi espaço de criatividade, improviso e genialidade. Hoje, corre o risco de se tornar apenas mais um palco onde a impunidade é naturalizada e a vitória serve como absolvição automática.
O título do Corinthians é oficial. Mas o seu significado simbólico vai além do esporte: ele revela um país onde a corrupção não precisa mais se esconder, ela entra em campo, apita o jogo, ignora o VAR e levanta a taça.
By: Roberto Vieira
Jornalista e comentarista esportivo




