Criado durante o auge da pandemia de COVID-19, quando a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas se espalhavam especialmente entre comunidades de cor, um programa inovador do Condado de Anne Arundel, em Maryland, transformou-se em uma política permanente de promoção da saúde, equidade racial e apoio à saúde mental de imigrantes e populações vulneráveis.
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Programa de “embaixadores da saúde” criado na pandemia se consolida como ferramenta de equidade e apoio à saúde mental em Maryland
Criado durante o auge da pandemia de COVID-19, quando a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas se espalhavam especialmente entre comunidades de cor, um programa inovador do Condado de Anne Arundel, em Maryland, transformou-se em uma política permanente de promoção da saúde, equidade racial e apoio à saúde mental de imigrantes e populações vulneráveis.
A iniciativa surgiu em um contexto de forte hesitação vacinal, alimentada por experiências históricas de discriminação, como o Estudo Tuskegee, que por décadas negou tratamento a homens negros diagnosticados com sífilis nos Estados Unidos. Para enfrentar esse cenário, o Departamento de Saúde do condado apostou em uma abordagem baseada na confiança comunitária: a criação de “embaixadores da saúde”, moradores treinados em princípios básicos de saúde pública e prevenção de doenças infecciosas.
Esses embaixadores atuaram diretamente nos bairros, distribuindo testes de COVID-19, máscaras e informações confiáveis sobre como se proteger. “Os embaixadores da saúde comunitária foram nossos parceiros essenciais e nossa presença no território”, afirmou Donna Perkins, diretora do Escritório de Avaliação e Planejamento do Departamento de Saúde de Anne Arundel. Segundo ela, os participantes vinham de organizações comunitárias e religiosas e se tornaram vozes confiáveis dentro das próprias comunidades.
Diante dos resultados positivos, o condado decidiu não encerrar o programa após o controle da pandemia, como ocorreu em muitas outras regiões. Pelo contrário. “Quando a vacinação aumentou e a COVID passou a fazer parte do cotidiano, a maioria das jurisdições reduziu esse tipo de iniciativa. Nós fizemos o oposto”, explicou Perkins. O programa foi ampliado e incorporado à divisão de equidade em saúde e justiça racial do departamento.
A expansão foi orientada por uma pesquisa realizada em 2023 pelos próprios embaixadores, que ouviu cerca de 16 mil moradores do condado. O levantamento revelou que a principal fonte de estresse que afeta a saúde mental das famílias é a insegurança econômica, evidenciando profundas desigualdades sociais. Embora o condado abrigue Annapolis, capital de Maryland e conhecida como a “capital da vela” nos EUA, muitos residentes enfrentam dificuldades financeiras, insegurança alimentar e instabilidade habitacional.
O impacto dessas desigualdades é ainda mais sensível entre imigrantes. Em Maryland, uma em cada seis pessoas nasceu fora dos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 17% da população estadual. Para muitos, a saúde mental não é prioridade imediata, mas os fatores de estresse — agravados por barreiras linguísticas, especialmente entre idosos — afetam diretamente o bem-estar.
É nesse contexto que atua Yolanda Iglesias, embaixadora da saúde comunitária e integrante do Centro de Ayuda, organização sediada em Annapolis que apoia imigrantes com serviços de orientação e capacitação. Imigrante e assistente social formada, Iglesias trabalhou por 25 anos em instituições prisionais na Espanha antes de assumir o novo papel. “Agora entendo melhor o que significa ser imigrante aqui. Muitos não sabem quais recursos estão disponíveis e enfrentam inúmeros desafios, principalmente quando têm filhos. É fácil esquecer de cuidar da própria saúde mental”, afirma.
Segundo especialistas, fatores culturais também dificultam a busca por tratamento. Estudos indicam que latinos, negros e asiáticos procuram menos serviços de saúde mental. Para Gabriel Rodríguez, diretor executivo do Centro de Ayuda, o estigma ainda é um grande obstáculo. “Na comunidade hispânica, saúde mental é muitas vezes associada à loucura. As pessoas dizem: ‘não somos loucos’. O que elas não percebem é que precisamos cuidar do corpo e da mente. Caso contrário, entramos em colapso”, destaca.
Os embaixadores da saúde ajudam a identificar moradores em sofrimento emocional e fazem a ponte com serviços e recursos disponíveis. O trabalho se apoia em parcerias com escolas públicas, tribunais e outras instituições. Além do apoio em saúde mental, o Centro de Ayuda oferece serviços familiares, clínicas jurídicas, aulas de inglês e preparação para o teste de cidadania, além de treinamentos para prevenção de overdoses por opioides.
Rodríguez reconhece que as políticas migratórias do atual governo continuam afetando o estado emocional das comunidades imigrantes. “Isso gerou muita ansiedade, especialmente no início. Hoje, há uma tentativa de retomar a normalidade, mas o medo ainda existe”, afirma. Para ele, o trabalho dos embaixadores é essencial para resgatar a dignidade de pessoas que se sentem constantemente vigiadas ou indesejadas.
“Estamos lidando com seres humanos. Não gosto de chamar pessoas de ilegais; prefiro o termo indocumentadas”, ressalta Rodríguez, lembrando que muitos migrantes fogem de regimes autoritários e enfrentam jornadas extremamente perigosas. “Metade consegue chegar, metade não. É preciso se colocar no lugar delas e entender o que as levou a correr esse risco.”
A experiência de Anne Arundel mostra como iniciativas baseadas em confiança, escuta e participação comunitária podem ir além de crises sanitárias pontuais, tornando-se ferramentas duradouras de equidade, inclusão e fortalecimento social.




