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Revista Brazilian Times # 86
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O medo levou algumas famílias a evitarem compras, serviços sociais e até a se isolarem em casa.

Aperto migratório gera medo em pomares de Washington e expõe dependência da mão de obra imigrante

Da redação

Em uma manhã fria de outono no vale central do estado de Washington, trabalhadores agrícolas percorriam fileiras de macieiras colhendo as últimas maçãs da safra. As frutas da variedade Pink Lady, entre as últimas a amadurecer, marcaram o encerramento de uma colheita que se estendeu de agosto ao início de dezembro, em meio ao endurecimento das políticas migratórias do governo Trump e ao aumento das prisões de imigrantes sem status legal.

Nos pomares da região, o clima foi de apreensão. Embora não tenham ocorrido grandes operações de fiscalização diretamente nos locais de trabalho, agentes federais intensificaram detenções fora do ambiente agrícola, abordando imigrantes durante deslocamentos cotidianos, como idas ao mercado, postos de gasolina ou no trajeto entre casa e trabalho. A estratégia ampliou o medo entre os trabalhadores e acrescentou um novo fator de risco à rotina das comunidades rurais.

Mesmo diante da insegurança, muitos continuaram indo aos pomares. Em Washington, colhedores experientes podem ganhar entre US$ 20 e mais de US$ 40 por hora. “Todo mundo precisa trabalhar para pagar as contas. Isso torna difícil não vir”, afirmou Raul Arroyo Rosas, horticultor do Vale do Yakima.

Estima-se que cerca de 40% da força de trabalho responsável pela produção de frutas, legumes e outras culturas intensivas nos Estados Unidos seja composta por imigrantes sem autorização legal. No centro de Washington, muitos chegaram há décadas, estabeleceram famílias e sustentaram a expansão de uma indústria que, em 2024, respondeu por quase 70% da produção nacional de maçãs.

A relevância econômica desses trabalhadores contrasta com sua vulnerabilidade jurídica. O deputado republicano Dan Newhouse, que representa a região, é um dos principais defensores de uma solução legislativa. Ele coassinou, pela quarta vez, o Farm Workforce Modernization Act, projeto que prevê um caminho para a regularização de trabalhadores rurais e a obrigatoriedade do uso do sistema federal E-Verify para checagem de documentos.

A proposta, no entanto, enfrenta resistência política. A relação de Newhouse com o presidente Donald Trump se deteriorou após o parlamentar votar pelo impeachment do presidente em 2021. Dentro do governo, alas mais rígidas pressionam por deportações amplas, incluindo no setor agrícola, enquanto produtores rurais alertam para o risco de colapso da mão de obra.

Em entrevista à CNBC, Trump afirmou que não pretende “prejudicar os agricultores” e chamou os trabalhadores rurais de “muito especiais”, mas até agora não apresentou um plano concreto para legalizar esse contingente. No Congresso, o projeto segue travado.

A ausência de avanços legislativos tem impacto direto nas famílias. Jamie Ortiz viu o marido ser preso em setembro, enquanto se deslocava para o trabalho em um pomar da região. Ele ficou seis semanas detido e acabou deportado para o México, ficando proibido de retornar aos Estados Unidos por 20 anos. “Seria incrível poder trabalhar sem medo, com uma autorização legal”, disse Ortiz.

Produtores também demonstram frustração. Para Aaron Clark, vice-presidente da Price Warehouse & Cold Storage, que cultiva frutas em cerca de 3.500 hectares no Vale do Yakima, manter trabalhadores vivendo na informalidade é prejudicial para todos. “Todo mundo entende que o sistema está quebrado, mas não há capital político para consertá-lo agora”, afirmou.

Diante da escassez de mão de obra local, o setor agrícola passou a depender cada vez mais de trabalhadores temporários estrangeiros com vistos H-2A. Em 2024, produtores de Washington contrataram quase 36 mil trabalhadores por esse programa, contra menos de 4 mil em 2011. Embora essenciais, esses contratos elevaram os custos em um momento de queda no preço das maçãs.

Em outubro, o Departamento do Trabalho propôs mudanças para baratear a contratação de trabalhadores H-2A, medida que gerou reação de sindicatos e resultou em ações judiciais por suposta redução ilegal de salários.

Enquanto isso, a pressão migratória segue afetando o cotidiano dos trabalhadores. Advogados e organizações comunitárias relatam um aumento nas prisões no segundo semestre, com picos de até 10 detenções por dia em novembro. O medo levou algumas famílias a evitarem compras, serviços sociais e até a se isolarem em casa.

Apesar da tensão crescente, o trabalho nos pomares não para. Com o fim da colheita, muitos trabalhadores já iniciaram a poda das macieiras, preparando a próxima safra. Entre incertezas, prisões e silêncio político, a agricultura do centro de Washington segue sustentada por uma força de trabalho essencial — e cada vez mais invisível.

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