Em Tucson, a celebração buscou preservar essa herança cultural, oferecendo às crianças migrantes um raro momento de alegria, fé e pertencimento em meio às incertezas do presente.
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Paróquia no Arizona celebra Dia de los Reyes com crianças imigrantes em meio a clima de temor e incerteza
Uma paróquia católica em Tucson (Arizona) promoveu, no dia 04, uma celebração antecipada do Dia de los Reyes (Three Kings Day) voltada a crianças imigrantes, oferecendo um momento de fé, cultura e acolhimento após um ano marcado por medo, tensão e endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos.
A celebração ocorreu na Paróquia St. Kateri Tekakwitha, onde dezenas de crianças — em sua maioria oriundas do México e de outros países da América Latina — participaram de atividades religiosas e culturais em torno de um grande presépio montado no interior da igreja. Usando coroas douradas de papelão, decoradas com adesivos e pedras artificiais, os pequenos relembraram a visita dos Três Reis Magos ao Menino Jesus, símbolo central da Epifania, comemorada oficialmente em 6 de janeiro.
Durante o encontro, o padre Raymond Riding, da congregação Missionary Servants of the Most Holy Trinity, falou às crianças em espanhol sobre acolhimento e esperança. Ao erguer a imagem do Menino Jesus do presépio, o sacerdote destacou a mensagem cristã de abertura e amor. “Jesus sempre tem os braços abertos para nos receber. Ele sempre quer nascer em nossos corações”, afirmou.
O evento foi organizado pela Salvavision, organização sem fins lucrativos sediada em Tucson que atua no apoio a famílias migrantes solicitantes de asilo nos Estados Unidos. Voluntários — incluindo estudantes de enfermagem — auxiliaram as crianças durante as atividades e ajudaram na organização da celebração, que teve como objetivo reconectar os participantes às tradições culturais de seus países de origem.
A Paróquia St. Kateri Tekakwitha, que recebeu o evento, leva o nome da primeira mulher indígena canonizada pela Igreja Católica, em 2012. Filha de um chefe mohawk e de uma mãe católica algonquina, Santa Kateri Tekakwitha tornou-se símbolo de fé e resistência. A paróquia atende, principalmente, comunidades indígenas da região, como os povos Pascua Yaqui e Tohono O’odham.
Além das atividades religiosas, as famílias participaram de uma refeição comunitária preparada por voluntários na cozinha da paróquia, com tacos, arroz e feijão, além de biscoitos caseiros e a tradicional rosca de reyes, bolo típico das celebrações do Dia de los Reis, decorado nas cores roxa, verde e amarela. Ao final, as crianças formaram fila para receber presentes em sacolas brilhantes, orientadas a não abri-los até chegarem em casa.
A fundadora da Salvavision, Dora Rodriguez, destacou a importância simbólica do evento para famílias que enfrentam situações de extrema vulnerabilidade. Migrante salvadorenha e hoje cidadã norte-americana, Rodriguez quase perdeu a vida durante sua própria travessia rumo aos Estados Unidos, há 45 anos. “Foi algo muito bonito. Essas famílias realmente precisam disso”, afirmou.
Segundo ela, a participação foi menor do que o esperado devido ao clima de medo vivido por muitas famílias migrantes, especialmente venezuelanas, que cancelaram presença após notícias envolvendo a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa pela administração Trump, em um caso que gerou insegurança e receio sobre possíveis repercussões migratórias.
Rodriguez também relembrou sua trajetória em um livro de memórias lançado recentemente, Dora: A Daughter of an Unforgiving Terrain, no qual relata a perigosa jornada pelo deserto do Arizona. Na ocasião, 13 pessoas que viajavam com ela morreram após serem abandonadas no calor extremo do Organ Pipe Cactus National Monument.
Tradicionalmente, o Día de los Reyes é a principal data de entrega de presentes em diversos países da América Latina. Em Porto Rico, território dos Estados Unidos, crianças mantêm o costume de colocar feno sob a cama para alimentar os camelos dos Reis Magos. Em Tucson, a celebração buscou preservar essa herança cultural, oferecendo às crianças migrantes um raro momento de alegria, fé e pertencimento em meio às incertezas do presente.




