Pioneiro no desenvolvimento da inteligência artificial, o físico Geoffrey Hinton decidiu deixar uma gigante da tecnologia em 2023 após reconhecer que os sistemas computacionais poderiam tornar-se mais inteligentes do que os próprios seres humanos muito antes do que ele e outros especialistas previam. Em entrevista à CNN, declarou: “Sou apenas um cientista que, de repente, percebeu que essas coisas estão ficando mais inteligentes do que nós”.
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Coluna Debora Corsi: O MUNDO ESTÁ EM PERIGO
Pioneiro no desenvolvimento da inteligência artificial, o físico Geoffrey Hinton decidiu deixar uma gigante da tecnologia em 2023 após reconhecer que os sistemas computacionais poderiam tornar-se mais inteligentes do que os próprios seres humanos muito antes do que ele e outros especialistas previam. Em entrevista à CNN, declarou: “Sou apenas um cientista que, de repente, percebeu que essas coisas estão ficando mais inteligentes do que nós”.
No mesmo contexto de inquietação, Mrinank Sharma, que liderava a equipe de Pesquisa de Salvaguardas da Anthropic, afirmou em carta divulgada pela CNN: “O mundo está em perigo”.
Já em 2020, a Netflix apresentou o documentário O Dilema das Redes, que examina os impactos negativos das redes sociais, evidenciando como algoritmos viciantes e a coleta massiva de dados pessoais influenciam comportamentos, emoções e pensamentos dos usuários para fins lucrativos.
A partir desses três marcos, delineia-se um novo tipo de conflito, silencioso e, para muitos, ainda imperceptível. Enquanto a atenção global se concentra em mísseis e em economias fragilizadas, a inteligência artificial avança de forma vertiginosa, transformando todos os setores da sociedade. Os alertas dos especialistas, entretanto, projetam um cenário inquietante. Se a IA alcança níveis de sofisticação capazes de levar um de seus pioneiros a pedir demissão por temer a perda de controle, os sinais já se tornam visíveis no cotidiano. Humanoides cada vez mais realistas, golpes digitais construídos com imagens e vozes indistinguíveis das humanas e indivíduos que passam a desabafar com máquinas como se estas fossem terapeutas revelam a dimensão do fenômeno.
Diante desse quadro, impõe-se uma reflexão mais profunda. O temor em relação às máquinas talvez oculte uma questão ainda mais urgente: o progressivo esvaziamento da própria humanidade. Torna-se necessário reaprender, quase como em um retorno às primeiras lições, o que significa ser de fato um humano.
Hoje, muitos já não conseguem sustentar o olhar do outro, absorvidos pela mediação constante das telas. Nas ruas, caminham distraídos, alheios ao entorno, enquanto a vida real se desenrola à sua volta. Relações outrora simples e espontâneas, como a convivência com vizinhos, a partilha de alimentos ou as conversas casuais em filas e praças, vão sendo substituídas pelo isolamento silencioso dos ambientes digitais.
O alerta, portanto, não reside apenas no potencial da máquina, mas na responsabilidade humana diante dela. A tecnologia não possui a capacidade de acolher, abraçar ou compreender a complexidade da alma em sua plenitude. Afinal, toda máquina é fruto da criação humana, concebida a partir de uma mente que a projetou.
Não se trata de rejeitar a tecnologia, o que já não é uma possibilidade concreta, como o próprio documentário evidencia, mas de resgatar uma essência que nenhuma inovação é capaz de substituir. Se o mundo se mostra, de fato, mais perigoso, a origem desse risco não está exclusivamente nas máquinas, mas nas escolhas humanas.
Quantas relações têm sido negligenciadas dentro dos próprios lares. Quantos vínculos, sejam conjugais, familiares ou de amizade, têm sido enfraquecidos pela ausência de presença genuína. No ambiente de trabalho, a desconexão interpessoal já se manifesta de forma alarmante. Um episódio ocorrido no estado do Arizona ilustra essa realidade de maneira contundente: uma funcionária faleceu dentro de uma instituição bancária, e sua ausência passou despercebida por dias. O corpo foi encontrado apenas quando um funcionário, ao notar um forte odor, inicialmente atribuído a um problema hidráulico, investigou o local e fez a descoberta.
Resta, portanto, uma indagação inevitável: que tipo de humanidade estamos nos tornando. As máquinas não possuem poder autônomo para transformar a essência humana. Essa transformação ocorre quando, conscientemente ou não, se permite que a frieza substitua a sensibilidade.
O mundo pode, de fato, estar em perigo. E, de maneira inegável, cada ser humano participa dessa construção.
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