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Revista Brazilian Times # 83
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Antonelli, bambino de ouro brilha em Suzuka 

Kimi Antonelli, o bambino de ouro, não tem absolutamente nada a ver com o caos criado por esse novo regulamento, enquanto veteranos reclamam, equipes se perdem no código e pilotos viram “gerentes de bateria”, ele simplesmente faz o que interessa: vence.

Kimi Antonelli, o bambino de ouro, não tem absolutamente nada a ver com o caos criado por esse novo regulamento, enquanto veteranos reclamam, equipes se perdem no código e pilotos viram “gerentes de bateria”, ele simplesmente faz o que interessa: vence. Em Suzuka, neste domingo (29), o garoto de apenas 19 anos, “muleke voador”, foi lá e cravou mais uma. Segunda vitória consecutiva. Líder da temporada. Sem drama, sem desculpa, sem choradeira. Enquanto a “nova F1 videogame” engole talento de muito medalhão, Antonelli surfa na bagunça com naturalidade absurda. Frio, rápido e letal.

Resumo da ópera: quanto mais confusa a categoria fica, mais o menino cresce.

Acidente faz direção repensar regulamento

A tão contestada Fórmula 1 da nova era já escancarou, nas três primeiras corridas, aquilo que muitos temiam desde o anúncio do regulamento: menos braço, menos autonomia do piloto e muito mais dependência de software, mapas de potência e gerenciamento de energia.

A sensação, para muitos pilotos e também para parte do público, é de que a categoria flerta perigosamente com uma espécie de “Mario Bros” de alta tecnologia. A nova receita, baseada num conjunto híbrido de 50% combustão e 50% elétrico, transformou a pilotagem em um jogo de recuperação de energia, liberação de potência e cálculo quase eletrônico de cada movimento na pista.

Não por acaso, vários pilotos já classificaram esse novo cenário como uma mistura de Fórmula 1 com Fórmula “E”. Em outras palavras: o talento puro segue existindo, mas perdeu espaço para a gestão de bateria, para o software e para o timing exato da entrega de potência. Hoje, muitas disputas não são resolvidas apenas no talento, no freio tardio ou na coragem. São definidas por quem recupera melhor, despeja melhor e administra melhor a energia disponível.

E isso ficou evidente logo neste início de temporada. Equipes que dominaram os últimos anos, como McLaren e Red Bull, ainda parecem perdidas na adaptação ao novo conceito. Já Mercedes e Ferrari, que vinham num papel mais discreto, surgiram de forma quase imediata como protagonistas, com uma diferença de rendimento que chamou atenção.

No meio desse novo caos técnico, as ultrapassagens ganharam uma dinâmica estranha. Como bem definiu Mariana Becker, virou um verdadeiro efeito yo-yo. Um carro economiza, o outro ataca. Um recupera, o outro descarrega. A disputa deixa de ser linear e passa a ser quase coreografada por ciclos de energia. É como no futebol moderno, em que muitas partidas acabam decididas pelo VAR. Na F1 atual, muitas ultrapassagens já não nascem exclusivamente da genialidade do piloto, mas da administração da recuperação energética.

O retrato mais claro disso apareceu quando o experiente Lewis Hamilton, heptacampeão do mundo, tomou uma ultrapassagem dupla de Charles Leclerc e George Russell na volta 43. Uma cena que, em outros tempos, seria analisada apenas sob a ótica de ritmo, desgaste ou erro de pilotagem. Hoje, ela precisa ser lida também pelo filtro da energia disponível em cada carro naquele exato momento.

E se já havia incômodo esportivo, Suzuka acendeu o alerta para algo mais grave: a segurança. O acidente de Oliver Bearman no GP do Japão assustou a Fórmula 1 inteira. A boa notícia é que o piloto não sofreu ferimentos graves. Mas a dinâmica da batida reforçou de forma dramática aquilo que muitos pilotos vêm alertando desde janeiro: a altíssima diferença de velocidade entre carros, provocada justamente pelos diferentes momentos de recuperação e liberação de energia, pode se tornar um risco real.

Fernando Alonso já havia resumido esse novo cenário de maneira precisa: muitas ultrapassagens hoje não são ultrapassagens de fato, mas “desvios” em frações de segundo para evitar o carro à frente. Reflexo puro. Instinto. Sobrevivência. E em Suzuka isso não foi suficiente para Bearman, quando encontrou à frente um Alpine que estaria quase 100 km/h mais lento.

A nova Fórmula 1 pode até ser tecnologicamente fascinante para engenheiros e estrategistas. Mas, se o espetáculo vira videogame e a diferença de velocidade começa a gerar sustos desse porte, algo precisa ser revisto com urgência.

A FIA e a própria F1 têm agora uma pausa de um mês no calendário. É o momento ideal para corrigir excessos, recalibrar o regulamento e atacar esse problema antes que o susto vire tragédia. Porque inovação é bem-vinda. Mas jamais à custa da essência da pilotagem, e muito menos da segurança.

A Fórmula 1 quis reinventar a roda e criou um problema sério. Ainda dá tempo de corrigir na pausa. Porque se continuar assim, não vai faltar crítica. Vai faltar segurança.

 Texto by: Roberto Vieira

Jornalista e comentarista esportivo 

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