Quando se fala em destinos capazes de surpreender, muita gente pensa primeiro em lugares internacionais consagrados. Mas, no alto da Serra da Mantiqueira, há um pedaço do Brasil que vem há décadas ensinando algo valioso ao mundo: turismo pode ser mais do que lazer. Pode ser acolhimento, cidadania e pertencimento.
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Coluna Cataldi: Rede dos Sonhos: o Brasil que ensina ao mundo que turismo também é inclusão
Quando se fala em destinos capazes de surpreender, muita gente pensa primeiro em lugares internacionais consagrados. Mas, no alto da Serra da Mantiqueira, há um pedaço do Brasil que vem há décadas ensinando algo valioso ao mundo: turismo pode ser mais do que lazer. Pode ser acolhimento, cidadania e pertencimento.
Esse lugar é Socorro.
E por trás dessa transformação está José Fernandes Franco, um nome central para uma revolução silenciosa que redefiniu o conceito de turismo inclusivo no país.
Em tempos em que se fala tanto em acessibilidade, sustentabilidade e experiências transformadoras, impressiona saber que José Fernandes começou a praticar tudo isso muito antes de esses conceitos virarem tendência.
Formado em agronomia pela Universidade de São Paulo e com carreira construída em multinacionais, ele deixou o mundo corporativo no início dos anos 1990 para apostar em um projeto que parecia ousado: transformar o campo em experiência.
Nascia ali o Campo dos Sonhos, primeiro passo do que viria a ser a Rede dos Sonhos.
O que poderia ter sido apenas mais um empreendimento rural tornou-se algo muito maior. Virou modelo.E, mais do que isso, virou causa.
Muito antes de “turismo para todos” entrar no vocabulário do setor, José Fernandes já entendia que aventura e natureza não deveriam ter barreiras.
Quando abraçou, em 2005, o projeto “Aventureiros Especiais”, promoveu algo raro: não adaptou pessoas ao turismo; adaptou o turismo às pessoas.
Rafting para cadeirantes.
Tirolesa acessível.
Trilhas inclusivas.
Vivências em que a palavra deficiência deixava de significar limite.
O impossível passava a caber na experiência.
Hoje, a Rede dos Sonhos recebe milhares de pessoas com deficiência todos os anos e tornou-se referência internacional em turismo acessível.
Mas talvez o maior feito tenha sido provar que inclusão não é nicho. É excelência.
Seu impacto, porém, não ficou restrito aos hotéis.
Quando Socorro ainda tinha estrutura turística modesta, José Fernandes ajudou a desenhar o destino que a cidade se tornaria, articulando planejamento, governança e desenvolvimento. Não apenas acompanhou o turismo brasileiro. Ajudou a moldá-lo.
O Parque dos Sonhos, o Terra dos Sonhos e o Colina dos Sonhos ampliaram esse conceito de hospitalidade baseada em experiência, sustentabilidade e inclusão.
Ao longo desse percurso, a participação de Jaqueline Franco também contribui para a continuidade desse legado, reforçando uma visão de acolhimento que permanece viva e em evolução.
Há algo particularmente inspirador nessa história para nós, brasileiros que vivemos fora.
Porque ela revela um Brasil que muitas vezes não ganha manchetes internacionais.
Um Brasil inovador. Solidário.Criativo.
Capaz de produzir modelos que o mundo observa.
Em um momento em que o debate sobre inclusão ganha força em New York City e em tantas outras grandes cidades, a experiência de Socorro oferece uma lição poderosa: acessibilidade não é apenas infraestrutura, é filosofia.
José Fernandes compreendeu isso cedo.
Quando o mercado via acessibilidade como custo, ele via valor.
Quando muitos associavam aventura apenas à adrenalina, ele enxergava cidadania.
Não por acaso, vieram reconhecimentos nacionais e internacionais.
Mas talvez sua maior conquista não esteja nos prêmios e sim, nas pessoas.
Naqueles que viveram pela primeira vez experiências antes consideradas impossíveis.
Nas famílias que descobriram que pertenciam, também, a esses lugares.
Nos destinos que passaram a se inspirar nesse modelo.
Num mundo que vende experiências, a Rede dos Sonhos oferece algo mais raro:
sentido.
E talvez esteja aí a grande beleza dessa história.
Ela nos lembra que o melhor do Brasil nem sempre está nas vitrines mais óbvias.
Pode estar nas montanhas…em um município do interior.
Na visão de um homem que transformou hospitalidade em cidadania.
E mostrou que turismo, quando pensado para todos, pode ser uma forma de dignidade.
Para quem vive longe do país, histórias assim têm um valor especial.
Elas lembram por que vale tanto falar do Brasil com orgulho.
Claudia Cataldi
Jornalista, M.Sc.em Ciência Política e Relações Internacionais,
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa de Mídia Digital e Eletrônica RJ
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