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Revista Brazilian Times # 86
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Rosângela Rennó prepara exposição inédita em Boston e reforça legado na fotografia contemporânea

A premiada artista plástica, professora e doutora em Artes Rosângela Rennó se prepara para um dos momentos mais significativos de sua trajetória internacional: sua primeira grande exposição em Boston, marcada para 4 de abril de 2026, no Museum of Fine Arts (MF Boston).

A premiada artista plástica, professora e doutora em Artes Rosângela Rennó se prepara para um dos momentos mais significativos de sua trajetória internacional: sua primeira grande exposição em Boston, marcada para 4 de abril de 2026, no Museum of Fine Arts (MF Boston). O projeto, que reunirá obras já consagradas e trabalhos inéditos produzidos especialmente para esse espaço, reforça a relevância de Rennó como uma das vozes mais potentes da arte contemporânea latino-americana.

Mineira de Belo Horizonte, nascida em 1962, Rennó vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formada em Artes Plásticas pela Escola Guignard e em Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concluiu o doutorado em Artes pela ECA-USP e hoje atua como professora-visitante na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto. Sua obra – amplamente estudada e exibida em instituições de referência – investiga as políticas de representação fotográfica, a fragilidade dos arquivos e as zonas de sombra da memória coletiva.

Com mais de três décadas de atuação, Rennó já apresentou exposições individuais em instituições como Estação Pinacoteca (São Paulo), Institut Moreira Salles (Rio de Janeiro), PhotoMuseum Winterthur (Suíça), Fundação Gulbenkian (Lisboa), MOCA (Los Angeles) e Les Rencontres d’Arles (França). Seu trabalho também integrou mostras coletivas no MoMA (Nova York), Tate Modern (Londres), Bienais de Veneza, São Paulo, Istambul e Berlim. Essa circulação internacional, entretanto, nunca afastou a artista de temas profundamente brasileiros – como a desigualdade, o apagamento histórico e a precariedade dos acervos públicos.

Durante a entrevista ao Algo a Dizer, nos estúdios da sede do Brazilian Times, Rennó destacou como a fotografia analógica marcou sua formação artística e moldou seu olhar. “Eu sempre gostei dessa relação quase mágica entre a realidade e aquilo que você captura no filme”, disse. “É um contato que não é físico, mas que passa pela lente e cria outra camada de existência.” 

Exposição em Boston

Para a exposição em Boston, foi selecionado um conjunto de obras já existentes do acervo de Rennó, mas a artista também desenvolve dois projetos inéditos: uma galeria de retratos de brasileiros vivendo na Grande Boston e um jornal que reunirá perfis e relatos da comunidade imigrante. A proposta dialoga com sua pesquisa sobre arquivos mortos, apagamentos e invisibilidades estruturais.

Ao falar sobre esse novo trabalho, Rennó explicou que deseja abordar a realidade migratória sem expor seus participantes a riscos. “Os meus retratos são feitos com pessoas que trazem a marca do projeto, um boné escrito making ou fazendo. O verbo está no presente, pois a referência é  sobre os brasileiros que estão fazendo a América. Ao mesmo tempo, o boné protege a identidade de quem fotografo.” 

A artista também ressaltou que muitos brasileiros vivem hoje em situação de vulnerabilidade migratória, o que influencia diretamente sua abordagem. “Boa parte da comunidade precisa se esconder. Não querem participar de eventos públicos porque têm medo de serem denunciados ou deportados”, afirmou. Ao dar visibilidade a essas histórias sem revelar rostos, Rennó cria um tensionamento entre presença e ausência, tema recorrente em toda a sua trajetória.

A publicação trará perfis de figuras importantes para a diáspora, além de reportagens sobre desafios recentes enfrentados pelos imigrantes na região. A artista descreve o projeto como uma extensão de sua pesquisa sobre arquivos precários e como forma de “registrar aquilo que, muitas vezes, não deixa rastro”.

O engajamento de Rennó com temas sociais nunca se separou de seu trabalho técnico e conceitual rigoroso. Autora de livros de artista celebrados, como A Última Foto (2006), Menos-valia (2013), Coração das Trevas (2019) e Good Apples | Bad Apples (2023), ela também recebeu prêmios como o Jabuti, o Guggenheim Fellowship e o Women in Motion Award (Arles, 2023).

Ao final da entrevista, a artista resumiu seu processo criativo com uma sinceridade que ecoa toda sua obra: “O que me move é perceber quando algo me afeta e modifica a minha percepção do mundo. É isso que tento devolver em forma de trabalho.” 

Já de volta ao Brasil para outras agendas de pesquisa e exposições, Rosângela promete retornar aos Estados Unidos antes da abertura oficial em Boston. Seu site, rosangelarenno.com.br, reúne grande parte de seu acervo e trajetória. A exposição no MF Boston promete ser mais um capítulo marcante dessa carreira que atravessa fronteiras, memórias e perguntas urgentes sobre o que escolhemos lembrar – e o que insistimos em esquecer.

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