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Revista Brazilian Times # 84
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Advogada é acusada de fraudar vistos humanitários e deixar milhares de imigrantes sob risco de deportação nos EUA

Uma advogada especializada em imigração no estado de Washington está no centro de um dos maiores escândalos envolvendo processos migratórios nos Estados Unidos. Alexandra Lozano é acusada de montar um esquema que utilizava relatos falsos de violência doméstica e tráfico humano para obter vistos humanitários em nome de milhares de imigrantes, muitas vezes sem que eles soubessem o que estava sendo apresentado às autoridades.

Uma advogada especializada em imigração no estado de Washington está no centro de um dos maiores escândalos envolvendo processos migratórios nos Estados Unidos. Alexandra Lozano é acusada de montar um esquema que utilizava relatos falsos de violência doméstica e tráfico humano para obter vistos humanitários em nome de milhares de imigrantes, muitas vezes sem que eles soubessem o que estava sendo apresentado às autoridades.

As acusações fazem parte de diversas ações judiciais e de uma investigação ética conduzida pela ordem dos advogados do estado. Segundo os processos, Lozano prometia soluções rápidas para regularizar a situação migratória de seus clientes, cobrava valores elevados pelos serviços e, ao mesmo tempo, colocava essas pessoas em situação de vulnerabilidade, aumentando o risco de deportação.

De acordo com as denúncias, o escritório da advogada operava em ritmo de produção em massa. Funcionários sem licença para exercer a advocacia nos Estados Unidos seriam responsáveis por atender clientes, preparar documentos e até reproduzir assinaturas em formulários que muitos imigrantes nunca chegaram a ler.

Entre os clientes que afirmam ter sido prejudicados está Gabriel Martinez Garcia, de 30 anos. Ele conta que sua família pagou cerca de US$ 30 mil acreditando que teria ajuda para regularizar a situação migratória. Em vez disso, sua mãe acabou sendo incluída em um processo de remoção do país, mesmo sendo casada com um cidadão americano naturalizado.

O escritório Luz del Camino Legal encerrou as atividades neste mês após a série de denúncias. Lozano entregou voluntariamente sua licença para advogar, evitando enfrentar um processo disciplinar, mas nega ter cometido qualquer irregularidade.

Segundo a ordem dos advogados de Washington, a assinatura da advogada aparece em mais de 53 mil processos de imigração ainda em análise. As autoridades ainda investigam quantos desses pedidos podem conter informações falsas e se os clientes tinham conhecimento do conteúdo apresentado em seus nomes.

Especialistas afirmam que o impacto do caso já afeta o sistema de imigração americano. Muitos dos antigos clientes agora tentam descobrir exatamente quais informações foram enviadas ao governo federal e temem sofrer consequências legais por declarações que afirmam nunca ter autorizado.

Vistos destinados à proteção de vítimas

Alexandra Lozano atuava principalmente com pedidos de vistos destinados a vítimas de violência doméstica e tráfico de pessoas, programas criados para proteger imigrantes que sofreram abusos e que precisam de proteção legal nos Estados Unidos.

Segundo advogados que hoje representam dezenas de ex-clientes da profissional, o escritório costumava transformar problemas familiares ou conflitos no ambiente de trabalho em relatos de abuso que não atendiam aos critérios exigidos pela legislação.

Embora muitos clientes conseguissem autorização para trabalhar pouco tempo após o protocolo dos pedidos, os problemas apareciam anos depois, quando buscavam a residência permanente e seus processos passavam por uma análise mais detalhada.

Defesa rejeita acusações

O advogado Angelo Calfo, que representa Alexandra Lozano, afirmou que todos os clientes tinham a responsabilidade de revisar seus formulários antes da assinatura e negou que sua cliente tenha promovido fraudes em larga escala.

Enquanto isso, documentos obtidos pela imprensa americana indicam que a advogada também é alvo de uma investigação conduzida pela unidade de combate a fraudes do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS).

Dados analisados pela Associated Press mostram que os golpes relacionados a serviços de imigração cresceram significativamente. Somente em 2025 foram registradas pelo menos 920 denúncias desse tipo, número superior ao total dos três primeiros anos do governo Biden. Especialistas acreditam que o volume real seja ainda maior, já que muitos imigrantes evitam denunciar por medo de comprometer sua situação migratória.

Funcionários no exterior participariam do esquema

As ações judiciais também afirmam que o escritório mantinha centenas de colaboradores na Colômbia, México e Argentina prestando consultoria jurídica e preparando processos, mesmo sem autorização para exercer a advocacia nos Estados Unidos.

Um ex-funcionário afirmou que era orientado a incentivar clientes a acrescentarem informações falsas sobre supostos abusos para aumentar as chances de aprovação dos pedidos.

A ex-diretora de operações do escritório declarou em depoimento que a empresa chegou a faturar US$ 1,7 milhão ensinando outras bancas de advocacia a utilizar a mesma estratégia para obtenção de vistos humanitários.

Imigrantes afirmam que desconheciam as informações apresentadas

Diversos ex-clientes afirmam que nunca tiveram acesso aos documentos enviados em seus nomes.

Erika Sanchez relatou que ela e o marido pagaram mais de US$ 32 mil acreditando que estavam contratando um serviço legítimo. Somente anos depois descobriram que o processo continha alegações falsas de abuso envolvendo familiares, o que levou seu marido a enfrentar um processo de deportação.

Outra cliente, Nora Murillo Moreno, disse que só foi informada sobre as informações falsas um dia antes da entrevista para obtenção do green card. Segundo ela, ficou sem saber se deveria contar a verdade às autoridades ou repetir o conteúdo do processo.

Governo endureceu regras após aumento dos pedidos

O crescimento expressivo dos pedidos de vistos para vítimas de violência doméstica e tráfico humano levou o governo americano a endurecer as regras desses programas.

Dados oficiais mostram que os pedidos baseados em violência doméstica saltaram de aproximadamente 15 mil em 2020 para mais de 53 mil em 2025. No mesmo período, as solicitações relacionadas ao tráfico humano passaram de cerca de mil para mais de 37 mil.

Para organizações de defesa dos imigrantes, no entanto, restringir o acesso aos programas pode acabar prejudicando vítimas reais. Elas defendem que o foco das autoridades seja responsabilizar profissionais que utilizam o sistema de forma fraudulenta.

Centenas de clientes tentam recuperar seus processos

Com o fechamento do escritório, centenas de ex-clientes passaram a procurar ajuda jurídica para obter cópias de seus processos e entender o que foi apresentado às autoridades de imigração.

Além das ações coletivas que pedem indenização pelos prejuízos financeiros, muitos também tentam evitar consequências migratórias decorrentes das supostas informações falsas.

Gabriel Martinez Garcia afirma viver diariamente com o medo de que sua mãe seja deportada em consequência da atuação do escritório.

“Nada disso deveria ter acontecido”, lamentou.

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