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Revista Brazilian Times # 83
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A lenda de Bárbara dos Prazeres, a temida “Bruxa do Arco do Teles”

Por volta de 1790, desembarcava no Rio de Janeiro uma jovem portuguesa de apenas 20 anos, de nome Bárbara Vicente de Urpia. Ela vinha acompanhada do marido, o fidalgo Antonio de Urpia. As razões da mudança para a América ainda hoje geram debate. Há quem diga que Bárbara fugia de uma acusação grave: o envenenamento da própria irmã em Portugal. Outros afirmam que a viagem teria sido arranjada para encobrir um romance extraconjugal da moça, aceito pelo marido e envolvendo um homem influente da alta nobreza.

Por volta de 1790, desembarcava no Rio de Janeiro uma jovem portuguesa de apenas 20 anos, de nome Bárbara Vicente de Urpia. Ela vinha acompanhada do marido, o fidalgo Antonio de Urpia. As razões da mudança para a América ainda hoje geram debate. Há quem diga que Bárbara fugia de uma acusação grave: o envenenamento da própria irmã em Portugal. Outros afirmam que a viagem teria sido arranjada para encobrir um romance extraconjugal da moça, aceito pelo marido e envolvendo um homem influente da alta nobreza.

De qualquer forma, o casal rapidamente se enturmou na elite carioca, favorecido pela beleza marcante de Bárbara e pelos contatos próximos com o Vice-Rei, o Conde de Resende. A jovem era admirada e desejada pelos homens mais poderosos da cidade. Porém, contrariando expectativas, ela acabou se apaixonando por um homem simples, negro e livre, que teria conhecido em uma serenata. Dominada pelo sentimento e pela vontade de viver esse amor, Bárbara assassinou o marido com uma punhalada enquanto ele dormia.

Mesmo sem ser incriminada oficialmente, a morte do fidalgo gerou suspeitas. A imagem de Bárbara diante da Corte desmoronou, e outro homem — pobre e vulnerável — foi acusado e executado em seu lugar. Assim, desacreditada e malvista, Bárbara deixou o convívio nobre e foi viver com o novo amante na região da Cidade Nova, área marginalizada e perigosa. Porém, a tragédia se repetiu: por causa de ciúmes e discussões envolvendo dinheiro, ela teria tirado também a vida desse companheiro. Mais uma vez, outro inocente pagou pelo crime.

Sem prestígio, Bárbara passou a se sustentar pela prostituição. Tornou-se amante de ricos comerciantes, funcionários importantes e até membros da Igreja. Com a chegada da Corte portuguesa em 1808, chegou a receber nobres recém-chegados da Europa, sempre em encontros discretos na Rua do Lavradio.

Arco do Teles

Mas o tempo foi implacável. Bárbara teria contraído doenças como sífilis, lepra e varíola. Perdeu a beleza que tanto encantava e foi sendo abandonada por todos. Já sem dinheiro e em condições físicas deploráveis, acabou exercendo a prostituição no Arco do Teles, então um local degradado, cheio de ruínas e miséria. Lá, ficou conhecida como “Bárbara dos Prazeres”, nome que fazia referência à imagem de Nossa Senhora dos Prazeres instalada no beco — e à própria atividade que ela exercia.

Com a saúde arruinada, buscou auxílio em feiticeiros e curandeiros, que lhe receitavam banhos com sangue de animais para recuperar a juventude. Nada funcionou. Foi então aconselhada a substituir os animais por crianças. No final da década de 1820, começou-se a registrar o desaparecimento de menores na cidade, aumentando o pânico nas famílias. Diz-se que Bárbara roubava bebês deixados na roda dos enjeitados da Santa Casa, e que seu nome passou a ser sussurrado em reuniões de desespero e medo.

Em 1830, um corpo feminino foi encontrado boiando próximo ao Mercado do Peixe. O rosto era irreconhecível, mas a cidade inteira acreditou ser Bárbara. Coincidentemente — ou não — os desaparecimentos cessaram. Não houve confirmação oficial, apenas o silêncio posterior.

O que é fato e o que é invenção dessa história? Impossível saber completamente. Mulheres que fugiam das normas e desafiavam os papéis sociais frequentemente eram transformadas em monstros e acusadas de crimes alheios. Talvez parte da história seja exagero, talvez não.

O que permanece é a lenda. Ainda há quem diga que, em noites escuras, quando o Arco do Teles está deserto, é possível ouvir risadas estranhas ecoando pelo lugar onde um dia viveu a mulher que o povo jurou chamar de bruxa.

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