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Revista Brazilian Times # 83
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Brasil se despede de Oscar do basquete

Em 1984, o brasileiro optou por não assinar o contrato com o NJ Nets da NBA para não ter que abrir mão da seleção brasileira

   O esporte brasileiro se despediu de uma de suas figuras mais emblemáticas com o falecimento de Oscar Schmidt, aos 68 anos, ocorrido na tarde de sexta-feira, dia 17 de abril, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo. O eterno “Mão Santa” não resistiu após passar mal em sua residência, sendo encaminhado ao hospital já em quadro de parada cardiorrespiratória. O ex-jogador vinha enfrentando uma saúde fragilizada nos últimos anos, marcada por uma batalha de uma década e meia contra um tumor cerebral, luta que o afastou de compromissos recentes, como a sua própria introdução ao Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro no início deste mês. 

 

     A trajetória de Oscar é definida por uma dedicação quase religiosa ao aperfeiçoamento técnico, o que transformou o potiguar de Natal em um ícone global da bola laranja. Embora tenha iniciado seu contato com o basquete em Brasília, foi em São Paulo, no Palmeiras, que ele iniciou a caminhada que o levaria a ser, até 2024, o maior pontuador da história da modalidade com impressionantes 49.737 pontos. Superado apenas recentemente por LeBron James, Oscar imortalizou o apelido que, apesar de sugerir algo divino, era fruto de exaustivas sessões de treino e repetição, como ele próprio gostava de enfatizar ao dizer que sua mão era “treinada”. 

 

    Sua carreira em clubes foi vasta e vitoriosa, percorrendo caminhos no Brasil, Itália e Espanha. Defendeu camisas pesadas como as de Sírio, Corinthians e Flamengo, conquistando títulos nacionais e um Mundial de Clubes. No entanto, foi com a camisa 14 da seleção brasileira que ele escreveu seus capítulos mais dramáticos e heroicos, atravessando gerações e atuando ao lado de grandes nomes como Marcel e Hortência. O auge dessa caminhada ocorreu em 1987, nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, onde liderou o Brasil em uma vitória histórica contra os Estados Unidos dentro da casa dos adversários. 

 

    Naquela final inesquecível, Oscar anotou 46 pontos, surpreendendo o mundo ao utilizar o arremesso de três pontos como uma arma letal, algo que ainda não era o padrão tático da época. A derrota imposta aos americanos, que contavam com futuros astros da NBA como David Robinson, foi um divisor de águas que ecoa até hoje no basquete mundial. Para Oscar, rever as imagens daquela conquista era uma rotina emocional que ele mantinha viva em suas palestras motivacionais, reforçando o orgulho de ter vencido um dos maiores desafios da história do esporte nacional. 

 

    Outro pilar que sustenta o mito de Oscar Schmidt foi sua renúncia à NBA, a liga de basquete mais prestigiada do mundo. Selecionado pelo New Jersey Nets no draft de 1984 — o mesmo ano de Michael Jordan —, o brasileiro optou por não assinar o contrato para não ter que abrir mão da seleção brasileira, uma exigência das regras da FIBA na ocasião. Essa escolha consciente pelo patriotismo em detrimento do glamour e das finanças americanas consolidou sua imagem como um herói nacional, permitindo que ele disputasse cinco Olimpíadas e se tornasse o maior cestinha da história da competição. 

 

    Mesmo sem nunca ter pisado nas quadras da liga norte-americana como jogador profissional, o prestígio de Oscar ultrapassou fronteiras a ponto de ele ser incluído no Hall da Fama do Basquete dos EUA em 2013, além de integrar o Hall da Fama da FIBA. Tamanho reconhecimento internacional é a prova inequívoca de que seu talento era universal e independia de estatísticas em solo americano. Sua presença em quadra era sinônimo de liderança e de um amor incondicional à bandeira brasileira, características que o transformaram em referência para diversas gerações de atletas. 

 

    A notícia de sua partida gerou uma onda de comoção nacional, unindo figuras políticas, comunicadores e colegas de profissão em tributos emocionados. O presidente Lula manifestou-se destacando Oscar como um exemplo de obstinação e talento, lembrando que o atleta uniu o país em torno das quadras por décadas. O Ministério do Esporte também se pronunciou, reforçando o legado inesquecível deixado pelo ala e as marcas impressionantes que o colocam no topo do panteão esportivo mundial, sublinhando sua excelência em todas as edições olímpicas de que participou. 

 

    No âmbito familiar, as homenagens trouxeram um tom mais íntimo e doloroso sobre a perda do homem por trás do ídolo. Seu filho, Felipe Schmidt, expressou o vazio deixado pela partida do pai, descrevendo-o como um herói dentro e fora das quadras e prometendo honrar os ensinamentos recebidos. O jornalista Tadeu Schmidt, irmão do jogador, o homenageou na abertura da edição do programa Big Brother Brasil, da Rede Globo, do qual é o apresentador, e utilizou as redes sociais para descrever Oscar como sua maior referência de dedicação. Já  narrador Galvão Bueno relembrou a genialidade do amigo, destacando que ele era desejado por todos os times do mundo, mas escolheu sempre o Brasil. 

 

     Hortência, outra lenda do esporte e contemporânea de Oscar, lamentou a perda de uma referência que tinha o patriotismo estampado no rosto. Para a Rainha do basquete, embora os ídolos sejam eternos em memória, a perda física de um amigo determinado e destemido deixa uma lacuna profunda no esporte feminino e masculino. A despedida de Oscar Schmidt não é apenas o fim de uma vida, mas o fechamento de um livro cujas páginas são fundamentais para entender a identidade do esporte brasileiro no século XX. 

 

    O legado de Oscar permanece vivo nos números, nos vídeos de seus arremessos do meio da rua e na mentalidade de vitória que ele ajudou a instaurar. Ao se aposentar aos 45 anos em 2003, ele já havia feito o suficiente para ser eterno; agora, sua história ganha contornos definitivos de lenda. O basquete mundial perde seu “Mão Santa”, mas a história da bola laranja guardará para sempre o nome do homem que provou que, com treino exaustivo e amor à camisa, é possível desafiar a lógica e vencer gigantes. 

 

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