As imagens do pai que chutou a própria filha de apenas três anos no rosto causaram indignação em todo o Brasil. O homem afirmou à polícia que “perdeu a cabeça” porque a criança não parava de chorar. O vídeo é difícil de assistir. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais difícil de responder: quando essa violência realmente começou?
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Coluna Jheny Miranda: Em que momento nós começamos a aceitar que violência pudesse ser chamada de educação?
As imagens do pai que chutou a própria filha de apenas três anos no rosto causaram indignação em todo o Brasil. O homem afirmou à polícia que “perdeu a cabeça” porque a criança não parava de chorar. O vídeo é difícil de assistir. Mas talvez exista uma pergunta ainda mais difícil de responder: quando essa violência realmente começou?
A maioria de nós olha para uma cena como essa e pensa: “Isso é um absurdo.” E é. Mas o chute não costuma ser o início da história. Ele é, muitas vezes, o momento em que a violência finalmente se torna impossível de ignorar.
Antes do chute, muitas vezes vieram a palmada, a chinelada, o puxão, os gritos, a humilhação e o castigo físico. Vieram frases como: “Eu apanhei e sobrevivi”, “É para o seu bem” ou “Uma palmada não faz mal”. Durante muito tempo, esses comportamentos foram chamados de educação. Hoje, sabemos que violência nunca educa; ela apenas interrompe um comportamento pelo medo.
Há um detalhe nesse caso que merece nossa atenção: a frase “perdi a cabeça”. Ela aparece repetidamente em histórias de violência contra crianças, quase sempre como uma tentativa de explicar o inexplicável. Mas ninguém perde a cabeça do nada. Adultos perdem o controle quando não desenvolveram estratégias de autorregulação emocional, quando cresceram acreditando que a violência é uma forma legítima de educar, quando entendem a obediência pelo medo como sinal de respeito e a punição como ferramenta educativa. Isso não justifica a agressão, mas nos ajuda a compreender que a prevenção da violência não começa no momento da crise. Ela começa muito antes, na educação emocional dos próprios adultos, na revisão dos padrões que carregamos da nossa infância e na construção de novas formas de exercer autoridade sem recorrer ao medo ou à força.
A neurociência mostra que o cérebro infantil aprende por meio das relações. Quando a pessoa que deveria oferecer proteção também provoca medo, o organismo da criança entra em estado de alerta. Ela pode até obedecer naquele momento, mas o aprendizado não acontece pela compreensão, e sim pela ameaça. Com o tempo, isso pode afetar o desenvolvimento emocional, a capacidade de autorregulação, a autoestima e a forma como essa criança construirá seus próprios relacionamentos.
Isso não significa que pais e mães precisem ser perfeitos. Todos nós perdemos a paciência em algum momento. A diferença está em compreender que disciplina não é sinônimo de punição. Educar exige limites, mas limites podem ser ensinados com firmeza, respeito e conexão.
Para nós, brasileiros que vivemos nos Estados Unidos, essa reflexão também é um convite para quebrar ciclos. Muitas vezes carregamos modelos de educação que fizeram parte da nossa infância sem nunca termos parado para questioná-los. A boa notícia é que padrões aprendidos podem ser transformados.
Toda violência extrema um dia foi uma violência considerada pequena. Por isso, a prevenção não começa quando um caso ganha as manchetes. Ela começa dentro de casa, nas pequenas escolhas diárias, na forma como enxergamos nossas crianças e respondemos às suas dificuldades.
Porque proteger uma criança não significa apenas impedir que ela seja machucada. Significa criar um ambiente onde ela possa crescer sem precisar ter medo de quem deveria ser seu porto seguro.
Proteger uma criança começa na confiança que ela tem em seus adultos cuidadores.
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