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Edição MA 4391

Última Edição #4391

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BT MAGAZINE

Revista Brazilian Times # 86
Última Edição #86

Coluna Arilda: Entrevista com o escritor José Micard Teixeira

José Micard Teixeira é um escritor português, Life Coach e Palestrante internacional, nascido em Aveiro no ano de 1961.

José Micard Teixeira é um escritor português, Life Coach e Palestrante internacional, nascido em Aveiro no ano de 1961. É licenciado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho – Braga, e fez o seu estágio no Comité Económico das Comunidades Europeias, em Bruxelas – Bélgica. Foi diretor geral de empresas do maior grupo económico português durante 12 anos e, um dia, decidiu mudar de vida e seguir o seu sonho. Escreveu o seu primeiro livro de desenvolvimento pessoal no ano de 2007, “Aprenda a Viver Sem Medo”, livro que o lançou no mundo da escrita. O livro foi depois traduzido em inglês e espanhol. Seguiram-se mais 14 livros até hoje, estando vários traduzidos em inglês, espanhol e romeno. A sua projeção internacional deveu-se à atriz norte-americana Meryl Streep e à ex-princesa Meghan Markle, que partilharam um dos seus textos traduzidos do seu livro em inglês “Tattoos on a
Grain of Sand” e que viralizou na internet, permitindo-lhe de ser convidado para palestrar em vários países do mundo. Atualmente, dá sessões online de Life Coaching, palestras online sobre os mais variados temas ligados à natureza humana, e acabou de publicar dois livros, um de textos motivacionais, “A Vida Tem Mais Sentido Contigo do Meu Lado”, e um de crônicas sociais, “Crónicas Sem Maquiagem sobre uma Sociedade Sem Perfume” 

Todos os seus livros estão disponíveis para venda na Amazon (www.amazon.com)

Qual é o processo criativo por trás de suas obras? Você tem algum ritual ou hábito específico que o ajuda a escrever?

O meu processo criativo nasce sempre de um mergulho interior. Escrevo a partir daquilo que vivo, observo e sinto, sobretudo das minhas próprias inquietações e descobertas. Não tenho um ritual rígido, mas preciso de silêncio e de espaço para que as idéias amadureçam. Muitas vezes começo apenas com uma pergunta ou uma sensação que insiste em não me deixar em paz e deixo que ela me conduza até às palavras.

Há também um hábito que considero essencial: a escuta. Escuto os sinais do tempo, as
memórias, o estado atual das relações interpessoais e a experiência de envelhecer sem medo, e traduzo isso em escrita. É quase como um diálogo íntimo com a vida, um diálogo que depois partilho no papel.

Como você acredita que a literatura pode influenciar a sociedade e moldar a forma como as pessoas pensam sobre o mundo?

Acredito que a literatura é uma das formas mais poderosas de transformação, porque não impõe: convida. Ao entrar numa história, o leitor tem a oportunidade de ver o mundo pelos olhos de outro, de sentir realidades que talvez nunca viveria. Esse exercício de empatia pode
mudar silenciosamente a forma como pensamos, como julgamos e até como agimos.
No meu caso, penso a literatura como um espaço de libertação: libertar-se do medo, do
preconceito, do tempo. Quando partilhamos palavras que nascem da nossa experiência mais íntima, abrimos uma fresta para que outros também se reconheçam e se permitam ver o mundo de maneira diferente. E, quando muitas pessoas mudam a forma de ver, a sociedade inevitavelmente se transforma.

Qual é o tema ou assunto que mais o inspira a escrever? E porquê?

O tema que mais me inspira a escrever é a própria vida em movimento: o tempo, as mudanças, as relações, o envelhecer e a coragem de atravessar tudo isto sem medo. Escrevo porque sinto que cada fase da minha existência traz uma sabedoria única, e registrar isso em palavras é a minha forma de compreender e também de partilhar.

O “porquê” é simples: acredito que falar sobre estas questões ajuda a libertar, a abrir espaço para que outros também se reconciliem com a passagem do tempo e com a sua própria história. A escrita, para mim, é um caminho de transformação pessoal e, quem sabe, coletiva.

Você tem algum autor ou obra literária que tenha sido particularmente influente em sua carreira? Quem e porquê?

Não consigo apontar apenas um nome, mas os autores que mais me influenciam são aqueles que tratam da vida em profundidade, sem máscaras, que olham o ser humano na sua fragilidade e grandeza. Escritores que falam do tempo, da passagem das estações da vida, e da necessidade de nos reconciliarmos com quem somos.

Essas obras influenciam-me porque não oferecem respostas prontas, mas sim perguntas que nos abrem horizontes. É isso que procuro também na minha escrita: provocar reflexão,
encorajar a libertação do medo e inspirar uma relação mais serena com o envelhecer e com a própria existência.

Como você equilibra a criatividade com a disciplina necessária para produzir uma obra
literária?

Para mim, criatividade e disciplina não são opostos, mas partes do mesmo caminho. A criatividade nasce do silêncio, da escuta interior, da observação da vida que se transforma a
cada dia. Mas para que essa inspiração se torne obra, é preciso disciplina, não no sentido
rígido, mas como um compromisso comigo mesmo.

Encontro o equilíbrio ao respeitar o fluxo natural das ideias, mas também ao reservar
momentos para escrever, mesmo quando as palavras parecem não querer sair. É nesse
encontro entre a liberdade e a constância que a escrita se constrói. Afinal, falar da vida, das
relações, do envelhecer sem medo e das transformações interiores exige tanto entrega criativa quanto perseverança.

Qual é o papel da emoção e da experiência pessoal em sua escrita? Você se inspira em eventos ou sentimentos específicos?

A emoção e a experiência pessoal são o coração da minha escrita. Escrevo a partir do que sinto e do que vivo, porque acredito que só aquilo que é verdadeiramente experimentado pode tocar o outro de forma autêntica. Muitas vezes, são os momentos de maior intensidade — alegrias, perdas, descobertas, medos superados — que se transformam em palavras.

Inspiro-me, sim, em eventos e sentimentos específicos, mas não para contar apenas a minha história: o que busco é traduzir essas experiências em algo universal, em reflexões que possam ressoar em quem lê. O envelhecer, por exemplo, deixa de ser apenas um dado biográfico e torna-se um tema de libertação, de coragem, de aceitação. A emoção é, portanto, não apenas combustível, mas também ponte entre mim e o leitor.

Você acha que a literatura pode ser uma ferramenta para promover a empatia e a
compreensão entre as pessoas? Como?

Sim, acredito profundamente que a literatura é uma das mais fortes ferramentas para
promover a empatia e a compreensão entre as pessoas. Quando lemos, entramos em contacto com universos que não são os nossos: sentimos o que o outro sente, caminhamos pelos seus medos, alegrias e perdas. Esse exercício de viver outras vidas em palavras abre espaço dentro de nós para acolher a diferença.

Na minha escrita, parto sempre da experiência pessoal — das inquietações, do tempo que passa, do desafio das relações e de viver sem medo —, mas o objetivo não é apenas falar de
mim. É sobretudo criar pontos de encontro: mostrar que aquilo que é íntimo pode ser também universal. A literatura tem esse poder de revelar que, no fundo, todos partilhamos as mesmas buscas essenciais, ainda que de formas distintas. É nesse reconhecimento que nasce a empatia.

Qual é o seu processo de revisão e edição? Você faz muitas mudanças após a primeira versão de uma obra?

O meu processo de revisão e edição é bastante reflexivo. A primeira versão costuma sair de um fluxo mais espontâneo, quase como um " despejo" de ideias ou inspirações. Depois, gosto de reler com algum distanciamento, procurando clareza, ritmo e coerência. Não costumo fazer mudanças drásticas ao conteúdo central, porque normalmente já nasce alinhado com a mensagem que quero transmitir. No entanto, faço ajustes importantes na forma — palavras, estrutura, fluidez — para que o texto chegue da maneira mais clara e envolvente a quem o lê.

Portanto, sim, faço alterações após a primeira versão, mas mais para lapidar do que para transformar totalmente o que já estava escrito.

Como você vê o futuro da literatura e do mercado editorial? Há algum desafio ou
oportunidade que você acha particularmente interessante?

Eu vejo o futuro da literatura cada vez mais plural e aberto. O mercado editorial está em
transformação, com a tecnologia a permitir que vozes antes invisíveis encontrem espaço e
leitores. Isto é uma grande oportunidade, porque nunca houve tanta diversidade de temas,
estilos e formatos. A literatura deixa de ser apenas uma “grande obra” impressa e passa
também por ensaios pessoais, reflexões digitais, livros independentes, e tudo isso amplia o
alcance das ideias.

O grande desafio, contudo, é não perder a profundidade. Vivemos tempos de excesso de informação, e há o risco de a literatura ser consumida com a mesma pressa que se lê uma rede social. Para mim, a verdadeira oportunidade está em cultivar espaços de pausa e interioridade, onde a escrita e a leitura possam voltar a ser uma experiência transformadora. Nesse sentido, acredito que haverá sempre lugar para obras que falam diretamente à alma humana — sobre viver, relações, envelhecer, superar medos — porque essa busca é intemporal.

Qual é o conselho que você daria a novos escritores que estão começando sua carreira? O que você aprendeu ao longo do caminho que você acha que seria útil para eles?

O conselho que eu daria a novos escritores é que não tenham medo de se expor através da palavra. Escrever não é apenas técnica, é sobretudo um ato de autenticidade. Muitas vezes, no início, queremos agradar ou corresponder a expectativas externas, mas a verdadeira força de um texto nasce quando ele vem da nossa própria verdade.

O que aprendi ao longo do caminho é que a escrita é também um exercício de autoconhecimento. Cada texto nos devolve algo de nós mesmos: um medo que precisa de ser olhado, uma memória que pede um espaço, uma ideia que busca uma forma. Por isso, é importante escrever com paciência, revisitar as palavras, mas sem sufocar o impulso inicial que as fez nascer.

Diria ainda que a carreira literária não deve ser encarada apenas como “mercado” ou “sucesso”, mas como uma oportunidade de deixar uma marca, mesmo que seja em poucos leitores. Se tocarmos verdadeiramente alguém com aquilo que escrevemos, já terá valido a pena.

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