Hoje vamos falar de liquidação. E, provavelmente, ao ler essa palavra, você pensou em vitrines chamativas, etiquetas vermelhas e preços reduzidos, anunciando a chance de adquirir um produto que antes parecia inacessível.
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Coluna Debora Corsi: Liquidação
Hoje vamos falar de liquidação. E, provavelmente, ao ler essa palavra, você pensou em vitrines chamativas, etiquetas vermelhas e preços reduzidos, anunciando a chance de adquirir um produto que antes parecia inacessível. É assim que funciona o comércio: quando surge a palavra liquidação, o público se aproxima, o estoque gira, o lojista recupera o capital que estava parado, os funcionários comemoram as comissões e o espaço se abre para a nova coleção, muitas vezes novamente com valores elevados.
A liquidação, no universo das vendas, é estratégia. É ajuste. É renovação.
O problema começa quando esse mesmo conceito passa, silenciosamente, a ser aplicado à vida humana.
Vivemos um tempo em que pessoas têm sido tratadas como mercadorias. No início de muitos relacionamentos, o outro é valorizado, visto como raro, quase “ouro em pó”. No entanto, diante de um conflito, de uma frustração ou de uma incompatibilidade, essa mesma pessoa é “liquidada”: descartada, desvalorizada, substituída. Não como alguém dotado de história, sentimentos e dignidade, mas como algo que perdeu a utilidade.
Esse processo de desumanização não é apenas simbólico. Ele se reflete em formas cada vez mais graves de violência, inclusive nos alarmantes casos de feminicídio. Mulheres são descartadas. Crianças, negligenciadas. Homens, frequentemente desprezados em seu sofrimento silencioso. A lógica é a mesma: perdeu o “valor” para alguém, é colocado à margem.
Mas o que a chamada “liquidação humana” tem produzido?
Um profundo desajuste emocional. Pessoas exaustas, sobrecarregadas, mergulhadas em medicamentos para tentar equilibrar a mente, sufocadas por dores que não encontram espaço de escuta. Algumas desistem da vida. Outras seguem, mas sem alegria, sem sentido, apenas sobrevivendo.
Nesse contexto, campanhas como o Janeiro Branco, voltadas à conscientização sobre a saúde mental, tornam-se cada vez mais necessárias. A proposta vai além da ausência de doença visível: trata-se de incentivar o autoconhecimento, o cuidado contínuo com as emoções e a construção de relações mais saudáveis.
Pessoas “liquidadas” dentro da própria família carregam marcas profundas e se tornam mais vulneráveis ao adoecimento emocional. No ambiente de trabalho, quando não há reconhecimento, o resultado muitas vezes é a amargura, a apatia, o esgotamento. E assim seguimos pelas ruas, cruzando com gente que sorri por fora, mas trava batalhas intensas por dentro, sem que ninguém perceba.
O Janeiro Branco é uma campanha criada no Brasil em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão e já conquistou a atenção de outros países, como França, Portugal, Espanha, Japão e outros. É um alerta que precisa ser levado a sério. Mas ela precisa começar em um espaço muito íntimo, dentro de casa, nos relacionamentos diários, nas palavras que escolhemos e na forma como tratamos quem está perto.
Vale uma pergunta honesta: quem, ao nosso redor, tem sido promovido por nós e quem tem sido, ainda que silenciosamente, “liquidado” por deixar de atender às nossas expectativas? Um exemplo são os idosos que são deixados em asilos e não recebem mais a visita de um familiar.
Seres humanos não são produtos promocionais. O valor de uma vida não pode ser reduzido por fases, falhas ou limitações. A dignidade que acompanha alguém desde o nascimento deve ser preservada até o último dia de sua existência.




