As embaixadas dos Estados Unidos na Venezuela, no México e no Brasil vêm usando suas redes sociais para promover mensagens anti-imigração que se alinham à política externa do governo Trump, segundo uma análise realizada pelo site Prism. Publicações que historicamente tratavam de vistos, serviços consulares e diplomacia agora são dominadas por avisos, ameaças e conteúdos que reproduzem discursos de segurança nacional e criminalização de imigrantes.
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Embaixadas dos EUA ampliam retórica anti-imigrante nas redes sociais na América Latina
As embaixadas dos Estados Unidos na Venezuela, no México e no Brasil vêm usando suas redes sociais para promover mensagens anti-imigração que se alinham à política externa do governo Trump, segundo uma análise realizada pelo site Prism. Publicações que historicamente tratavam de vistos, serviços consulares e diplomacia agora são dominadas por avisos, ameaças e conteúdos que reproduzem discursos de segurança nacional e criminalização de imigrantes.
Um dos exemplos mais evidentes ocorreu em 30 de julho, quando a Embaixada dos EUA na Venezuela publicou em espanhol que “cruzar a fronteira ilegalmente tem consequências”, alertando que determinadas áreas fronteiriças foram definidas como zonas de defesa nacional — o que permitiria detenções, multas e processos criminais. A publicação integrou uma sequência de postagens voltadas a desencorajar a migração, muitas delas em tom alarmista.
Entre janeiro e agosto de 2025, a representação diplomática em Caracas publicou 348 posts, sendo 45% com linguagem anti-imigrante. Parte das mensagens incentivava que imigrantes indocumentados “se auto-deportassem” seguindo a nova política do Departamento de Segurança Interna (DHS), que desde julho oferece U$ 1.000 para quem solicitar retorno voluntário pelo aplicativo CBP Home.
Outro exemplo foi a publicação de 18 de agosto, alertando que venezuelanos que cruzassem a fronteira “ilegalmente” seriam presos, deportados e proibidos de retornar. Segundo especialistas consultados pelo Prism, esse tipo de mensagem representa uma ruptura com o papel tradicional das embaixadas, que historicamente buscavam fortalecer relações diplomáticas.
Jacob Ware, pesquisador do Council on Foreign Relations, afirma que o conteúdo divulgado revela uma mudança profunda no objetivo diplomático. “Se essa é a principal narrativa das embaixadas, estamos vendo uma transição de construir pontes para derrubá-las”, disse.
A análise também identificou que as contas oficiais têm recorrido a memes e referências culturais para suavizar a mensagem e aumentar o alcance. Em julho, a Embaixada dos EUA no Brasil publicou — e posteriormente apagou — uma imagem de E.T. voando em uma bicicleta com a frase “Até o E.T. sabia quando era hora de ir para casa”. O conteúdo foi amplamente criticado por veículos brasileiros e classificado por especialistas como exemplo de “populismo banana”, uma estratégia que mistura humor e mensagens de extrema direita para normalizar discursos xenófobos.
O DHS adota estratégia semelhante, publicando desde memes de Pokémon com o slogan “gotta catch ’em all” referindo-se à captura de imigrantes, até vídeos ASMR de deportações e imagens idealizadas de uma América exclusivamente branca acompanhadas de hashtags como #AmericaSafer e #AmericaFirst — esta última historicamente associada a movimentos supremacistas.
Segundo Ilana Hartikainen, pesquisadora da Universidade de Helsinque, essas narrativas evocam uma nostalgia fabricada de um país “seguro porque era mais branco”, justificando políticas militares e repressivas.
As publicações da Embaixada dos EUA na Venezuela também atacam diretamente o governo venezuelano, responsabilizando-o pela crise econômica e acusando o presidente Nicolás Maduro de liderar um suposto cartel de narcotráfico. Embora os EUA aleguem que Maduro integra o “Cartel de Los Soles”, a administração Trump não apresentou evidências públicas.
Essa retórica foi reforçada por uma nova ordem executiva que classifica cartéis de drogas como organizações terroristas. Segundo Ware, isso pode abrir caminho para que cidadãos venezuelanos e mexicanos sejam acusados nos EUA de fornecer “apoio material ao terrorismo”, ampliando o risco de criminalização de imigrantes.
Desde setembro, o governo Trump também iniciou ataques aéreos no Caribe e no Pacífico alegando “combate ao narcotráfico”, sem apresentar provas públicas. Pelo menos 83 pessoas morreram em 21 bombardeios considerados ilegais por organizações de direitos humanos. Uma dessas operações chegou a ser divulgada no Instagram oficial da Embaixada dos EUA na Venezuela.
Juan Escalante, ativista e estrategista digital venezuelano-americano, afirma que essa narrativa reforça o estigma contra sul-americanos. “É uma forma de perpetuar a ideia de que toda a região é um grande esquema de tráfico humano e drogas”, disse.
Pressões sobre o México e risco de intervenção
A retórica anti-imigrante também se intensificou nas redes da Embaixada dos EUA no México. Em diversas ocasiões, os perfis relacionaram a crise do fentanil à migração e sugeriram ações conjuntas entre ICE e autoridades mexicanas. Em maio, uma publicação celebrou a prisão de um traficante com a hashtag #AmericaSafer.
As tensões aumentaram após revelações de que o governo Trump planeja enviar tropas ao México para combater cartéis. Embora a embaixada tenha negado qualquer intenção de invasão, o episódio em que contratados do Departamento de Defesa desembarcaram acidentalmente em uma praia mexicana e declararam o território como norte-americano gerou perplexidade e desconfiança.
Exportação de narrativas e impactos na América Latina
Pesquisadores alertam que a estratégia dos EUA está influenciando governos da região. No Brasil, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, passou a usar o termo “narcoterrorismo” para justificar operações policiais violentas, como a ação que deixou 121 mortos no Complexo do Alemão e da Penha em outubro. Paralelamente, um projeto de lei no Congresso brasileiro propõe enquadrar milícias, facções e organizações criminosas como terroristas — iniciativa inspirada diretamente na política norte-americana.
Segundo especialistas, isso pode abrir espaço para intervenções externas e ampliar violações de direitos humanos, lembrando períodos sombrios da história brasileira, como a ditadura apoiada pelos EUA.
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