Mais de 25 mil pessoas foram deportadas pelos Estados Unidos para países diferentes de suas nações de origem desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, segundo uma investigação jornalística internacional que analisou a expansão dos acordos americanos para receber imigrantes removidos.
O levantamento, divulgado nesta segunda-feira (21), faz parte do The Deportation Project, investigação coordenada pela organização Forbidden Stories e realizada por 72 jornalistas de 24 veículos de comunicação em 15 países.
De acordo com os dados reunidos pela investigação, pelo menos 25.447 pessoas haviam sido enviadas a terceiros países até 31 de agosto de 2026. Cerca de 20 mil foram encaminhadas ao México, enquanto milhares de outras foram transferidas para diferentes destinos na América Latina, África e região do Pacífico.
A investigação identificou entendimentos dos Estados Unidos com 35 governos para receber deportados. Parte dessas negociações teria ocorrido com pouca divulgação pública e os termos variam de acordo com o país, incluindo número de pessoas que podem ser recebidas, nacionalidades aceitas e outras condições.
O levantamento também aponta que o governo americano reservou ou comprometeu aproximadamente US$ 410 milhões relacionados a esses acordos, incluindo recursos destinados a governos estrangeiros e organismos internacionais envolvidos no processo.
Entre os exemplos citados está Palau, que teria concordado em receber até 75 pessoas em um acordo envolvendo US$ 7,5 milhões. Até o período analisado, três deportados haviam sido enviados ao país. Eswatini, por sua vez, recebeu 32 pessoas desde julho de 2025 dentro de um entendimento que poderia abranger até 160 deportados e envolveria mais de US$ 5 milhões.
A estratégia é conhecida como deportação para terceiros países. Ela permite que determinadas pessoas sujeitas a ordens de remoção sejam enviadas para uma nação diferente daquela de sua nacionalidade. O governo americano sustenta que o mecanismo pode ser utilizado para executar ordens de deportação, inclusive em situações nas quais o retorno ao país de origem enfrenta obstáculos.
A política, entretanto, tornou-se alvo de disputas judiciais. Advogados de imigrantes argumentam que uma pessoa não deve ser enviada a outro país sem receber informação adequada sobre o destino e oportunidade de alegar eventual risco de perseguição ou tortura.
Em 18 de setembro, o Tribunal Federal de Apelações do 1º Circuito rejeitou, em grande parte, uma política do governo que permitia acelerar determinadas deportações para terceiros países sem garantir previamente esse tipo de contestação. A disputa judicial ainda poderá avançar para instâncias superiores.
A investigação internacional também atribui papel importante ao Office of Remigration, estrutura criada dentro do Departamento de Estado em 2025 para atuar na política de remoções e na negociação de acordos com outros governos.
Os números revelados pelo projeto ajudam a dimensionar uma estratégia migratória que ganhou visibilidade com casos de deportados enviados para países com os quais tinham pouca ou nenhuma ligação anterior. Entre episódios recentes estão transferências para nações africanas, incluindo Libéria e Guiné Equatorial.
A utilização desses destinos colocou as deportações para terceiros países no centro de uma discussão que envolve política migratória, devido processo legal, segurança dos deportados e os limites da autoridade do governo americano para decidir para onde uma pessoa pode ser removida.





