Da redação
A vida de Nancy Martinez mudou drasticamente em 9 de junho de 2025, quando agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) a prenderam diante de sua residência em New Haven, Connecticut, na presença dos dois filhos. Um mês depois, ela foi deportada para o México, deixando para trás o marido, uma filha adolescente e um menino de apenas 9 anos, diagnosticado com transtorno do espectro autista.
Atualmente, Nancy vive em Naucalpan de Juárez, no México, onde tenta reconstruir sua vida trabalhando como vendedora ambulante. Diariamente, ela monta uma pequena barraca e organiza roupas e calçados para vender nas ruas. Entretanto, mesmo a milhares de quilômetros de distância, continua tentando exercer seu papel de mãe.
O telefone celular se tornou o principal elo entre Nancy e os filhos, que permanecem nos Estados Unidos. As ligações acontecem antes das aulas, depois da escola e na hora de dormir. Em algumas ocasiões, funcionários da escola precisam entrar em contato com ela porque seu filho entra em crise emocional e pede pela presença da mãe.
"Não importa o que eu esteja fazendo: corro para falar com meus filhos. Estou sempre presente para eles", relatou Nancy.
Antes da deportação, ela acompanhava de perto a rotina das crianças, preparava refeições caseiras para levarem à escola e estabelecia regras para os momentos em família, incluindo a proibição do uso de celulares e tablets durante as refeições.
Agora, a mãe que antes organizava as roupas dos filhos precisa dobrar camisetas para vender a desconhecidos, enquanto tenta manter os vínculos familiares por meio de chamadas telefônicas.
Filho com autismo sofre com a ausência da mãe
A separação tem provocado consequências emocionais especialmente difíceis para o filho mais novo de Nancy, que tem transtorno do espectro autista.
Segundo os relatos apresentados no caso, o menino, normalmente reservado, passou a expressar com frequência a saudade da mãe. Na escola, ele procura professores, familiares e até desconhecidos para dizer que deseja vê-la novamente.
"Eu só quero minha mãe", costuma repetir.
Em algumas ocasiões, a criança chegou a abordar um segurança nos corredores da escola para perguntar por que haviam levado sua mãe embora.
A situação preocupa a família, que tenta ajudar o menino a lidar com a ausência materna e com as lembranças do dia em que presenciou a prisão.
Prisão aconteceu quando família saía para a escola
Na manhã de 9 de junho de 2025, Nancy se preparava para levar os filhos à escola, durante a última semana completa de aulas antes das férias de verão. Depois de deixá-los, ela pretendia comparecer a uma audiência judicial.
Entretanto, antes que pudesse sair com o veículo, três carros cercaram a família.
De acordo com a ação judicial apresentada posteriormente, agentes do ICE ordenaram que Nancy saísse do automóvel. Como ela não fala inglês, teve dificuldades para compreender as instruções.
Enquanto os agentes a algemavam, sua filha adolescente, identificada nos documentos judiciais pelas iniciais M.A.M., questionou o motivo da prisão.
Os agentes teriam informado que existia um mandado de prisão contra Nancy, mas, segundo a denúncia, nenhum documento foi apresentado à família naquele momento.
O filho mais novo começou a chorar na calçada, enquanto a mãe tentava falar com a adolescente em espanhol.
Nancy foi colocada na parte traseira de um veículo preto. Conforme o processo, ela sofreu naquele momento seu primeiro ataque de pânico.
A mãe de Nancy, que estava visitando a família vinda do México, saiu da residência ao ouvir os gritos da filha e permaneceu com as crianças.
Família acusa agentes de negligência durante a operação
Com o apoio da Clínica de Defesa dos Direitos dos Trabalhadores e Imigrantes da Faculdade de Direito da Universidade Yale, Nancy apresentou uma ação judicial contra o governo federal americano.
O processo questiona a conduta dos agentes durante a prisão e afirma que os dois menores foram expostos a uma situação traumática, sem que as autoridades adotassem os cuidados necessários para garantir sua segurança.
Segundo a denúncia, os agentes colocaram Nancy em um veículo descaracterizado e deixaram o local sem verificar adequadamente quem ficaria legalmente responsável pelas crianças.
Os advogados também alegam que os agentes ignoraram a presença da avó e se recusaram a informar ao pai das crianças, por telefone, para onde Nancy estava sendo levada.
O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS), entretanto, contestou essas acusações.
Em declaração enviada ao Connecticut Mirror, o órgão classificou as alegações como falsas e afirmou que, antes de deixar o local, os agentes confirmaram que a mãe de Nancy estava na residência e poderia cuidar dos netos.
Governo cita histórico de prisões; defesa apresenta outra versão
O DHS informou que Nancy estava nos Estados Unidos sem autorização migratória e possuía antecedentes de prisões relacionadas a acusações de agressão e perturbação da ordem pública.
Os advogados Michael Wishnie e Armando Ghinaglia-Socorro, responsáveis pela representação de Nancy, explicaram que as acusações decorreram de uma discussão familiar envolvendo sua cunhada e questões relacionadas aos cuidados de crianças.
Segundo a defesa, as autoridades estaduais haviam concordado em retirar as acusações caso Nancy participasse de aulas de controle da raiva, atividade que ela começou em maio de 2025.
Os advogados acrescentaram que os promotores solicitaram o arquivamento do processo depois que ela foi deportada.
Processo busca indenização, mas não garante retorno aos Estados Unidos
Nancy foi uma das aproximadamente 100 pessoas presas pelo ICE em Connecticut durante junho de 2025, segundo dados da agência disponibilizados pelo Deportation Data Project.
Sua ação judicial pede indenização financeira pelos danos que a família afirma ter sofrido em decorrência da operação. Os advogados classificam a conduta dos agentes como abusiva e imprudente.
Entretanto, mesmo uma eventual vitória judicial não garantiria o retorno de Nancy aos Estados Unidos, já que a ação indenizatória não resolve diretamente sua situação migratória.
Enquanto aguarda o andamento do processo, Nancy continua trabalhando nas ruas do México e acompanhando, por telefone, a vida dos filhos em Connecticut.
A distância não a impede de conversar diariamente com as crianças, mas as chamadas não substituem a convivência familiar interrompida pela deportação.
Para o filho de 9 anos, que continua perguntando por que levaram sua mãe embora, a ausência permanece como uma realidade difícil de compreender.





