Este é um texto sobre as encruzilhadas silenciosas da existência. Sobre aquilo que deixamos de viver, não por acidente, mas por escolha. E sobre o mistério de nunca sabermos, realmente, o que teria acontecido se tivéssemos seguido a outra opção, porque lembremos, ela sempre há, sempre houve e haverá….
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O Que Não Vivemos: A Outra Vida Que Também É Nossa
Este é um texto sobre as encruzilhadas silenciosas da existência. Sobre aquilo que deixamos de viver, não por acidente, mas por escolha. E sobre o mistério de nunca sabermos, realmente, o que teria acontecido se tivéssemos seguido a outra opção, porque lembremos, ela sempre há, sempre houve e haverá….
Não é arrependimento. É um tipo de fascínio metafísico: como seria minha vida se eu tivesse escolhido diferente? Se eu tivesse ficado naquela cidade. Se tivesse aceitado aquele emprego. Se não tivesse dito aquilo. Se tivesse dito. Se tivesse insistido…
Trata-se do que não aconteceu e ainda assim nos afeta. O trabalho que não aceitamos, a faculdade que não cursamos, a profissão que deixamos para depois e nunca retomamos. Seríamos outros? Seríamos melhores? Ou apenas estaríamos diante de um outro “eu”, igualmente imperfeito, igualmente desejante, igualmente perdido e encontrado?
A escolha profissional é um dos campos mais densos desse jogo de realidades não vividas. Desde cedo, somos levados a decidir “o que ser”, como se a vida coubesse em uma definição estática. Engenheiro. Professora. Médico. Artista. Advogada. E, com isso, cada escolha se converte em muitas não-escolhas. Cada sim profissional contém mil nãos disfarçados. Não seremos tudo. E isso, às vezes, dói.
Há quem escolha com clareza e, mesmo assim, sinta o peso do que ficou para trás. Há quem siga por inércia, e só muito tempo depois perceba que aquela escolha inicial virou jaula. Há quem mude no meio do caminho. Há quem mude tarde demais. E há, ainda, quem não mude nunca, mas sonhe em silêncio com a vida que não levou.
Somos formados tanto pelas experiências que vivemos quanto por aquelas que só imaginamos. A vida que vivemos está diante dos nossos olhos. Mas a que não vivemos, essa que se constrói de e se…?, de memórias que não existem e futuros que nunca serão, tem sua própria densidade. Ela nos acompanha. Ela nos questiona.e nos ensina.
Talvez nunca saibamos se a outra escolha teria nos feito mais felizes. E talvez não devamos saber. Há algo de divino na ignorância: o fato de não termos acesso à linha paralela do tempo nos obriga a viver plenamente esta. A viver sem garantias, mas com presença.
Ainda assim, é legítimo e profundamente humano sentar-se à beira do que não fomos e, por um instante, imaginar. Não como fuga, mas como reconhecimento. Porque aquilo que deixamos de ser também nos forma. Aquela profissão, aquele lugar, aquele amor, aquela estrada… estão conosco. Mesmo que jamais tenham existido de fato.
No fim, viver é isso: carregar consigo todas as versões que não floresceram e, mesmo assim, continuar regando a que se tornou real.
Claudia Cataldi
Jornalista, M.Sc.em Ciência Política e Relações Internacionais, Apresentadora de TV e Professora da Pós Graduação da Escola do Legislativo do Estado do Rio de Janeiro
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