As fortes enchentes que atingiram o sul do Texas nos últimos dias inundaram áreas onde estavam sendo realizados preparativos para a construção de novos trechos do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México. O avanço das águas do Rio Grande deixou para trás um cenário de lama, erosão e rachaduras no terreno, levantando novas preocupações sobre a viabilidade das obras em regiões historicamente sujeitas a inundações.
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Enchentes no Texas inundam áreas preparadas para muro na fronteira e reacendem debate sobre impactos ambientais
As fortes enchentes que atingiram o sul do Texas nos últimos dias inundaram áreas onde estavam sendo realizados preparativos para a construção de novos trechos do muro na fronteira entre os Estados Unidos e o México. O avanço das águas do Rio Grande deixou para trás um cenário de lama, erosão e rachaduras no terreno, levantando novas preocupações sobre a viabilidade das obras em regiões historicamente sujeitas a inundações.
No condado de Zapata, cerca de 80 quilômetros ao sul de Laredo, a força da correnteza carregou destroços, sedimentos e até algumas das boias flutuantes utilizadas como barreiras de segurança na fronteira. A área recentemente desmatada para receber a estrutura do muro ficou encharcada e instável após a rápida elevação e posterior recuo do nível do rio.
Moradores afirmam que a enchente registrada nesta semana esteve longe de ser uma das maiores da região. A ambientalista Elsa Hull, residente da comunidade de San Ygnacio, afirma que, mesmo assim, as águas ultrapassaram as margens do Rio Grande e cobriram completamente o terreno destinado à construção.
Segundo ela, as rachaduras visíveis no solo mostram a fragilidade da área e servem de alerta para futuros eventos climáticos. Hull lembra que a enchente histórica de 2010 foi muito mais intensa e afirma que, caso um episódio semelhante volte a ocorrer, parte do muro poderia ficar submersa.
A moradora também se posiciona contra a instalação de boias flutuantes no Rio Grande, argumentando que tanto elas quanto o muro podem alterar o comportamento natural do rio durante períodos de cheia.
Já a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) sustenta que tanto o muro quanto as barreiras aquáticas são componentes importantes da estratégia de segurança para impedir travessias ilegais em uma das áreas mais remotas da fronteira. Os planos da agência incluem quilômetros de novas barreiras metálicas e boias de aproximadamente 3,6 metros de comprimento ao longo do condado de Zapata.
Outro morador de San Ygnacio, o conservador de patrimônio histórico Frank Briscoe, afirma que o Rio Grande possui um longo histórico de grandes enchentes e que qualquer estrutura permanente instalada às suas margens deve considerar esse comportamento natural. Ele recorda uma inundação registrada em 1954, pouco depois da entrada em operação da represa Falcon, quando as águas chegaram a cercar completamente a cidade.
Briscoe ressalta que a enchente desta semana representou apenas uma fração dos eventos históricos registrados na região. Segundo ele, a vegetação natural removida para abrir espaço ao muro ajudava a reduzir a velocidade da água e diminuía o processo de erosão das margens.
Além dos impactos sobre o terreno, a cheia provocou problemas no abastecimento de água da cidade. A única bomba responsável pela captação de água potável de San Ygnacio foi deslocada durante a enchente. Embora tenha sido reforçada com correntes para resistir à força da correnteza, o rápido recuo das águas deixou o equipamento preso na lama, impedindo o funcionamento do sistema.
Equipes de diferentes órgãos federais, estaduais e locais participaram da operação para restabelecer o abastecimento. Agentes da Patrulha de Fronteira, da Administração de Repressão às Drogas (DEA), do Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), da Guarda Nacional e uma equipe especializada de resposta a emergências do condado de Boone, no Missouri, atuaram no local.
Após horas de trabalho, máquinas pesadas da construtora Kiewit, empresa responsável pelas obras do muro, conseguiram reposicionar a bomba de captação no leito do Rio Grande, permitindo o início dos trabalhos para normalizar o fornecimento de água à população.
Apesar dos prejuízos, as chuvas também trouxeram um efeito considerado positivo para a região. O volume de água armazenado na Represa Falcon, reservatório internacional localizado entre Texas e o estado mexicano de Tamaulipas, aumentou significativamente. Dados da Comissão Internacional de Limites e Águas indicam que o reservatório atingiu cerca de 21% de sua capacidade, aproximadamente o dobro do registrado no mesmo período do ano passado.
As enchentes reacendem o debate sobre os desafios de conciliar projetos de infraestrutura na fronteira com as características naturais do Rio Grande, especialmente em uma região onde eventos extremos de cheia fazem parte da história e continuam representando riscos para comunidades locais e obras de grande porte.
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