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Revista Brazilian Times # 86
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Queda na matrícula de estudantes imigrantes afeta escolas nos EUA, reduz verbas e força cortes

Enquanto o debate sobre imigração continua acalorado, escolas em todo o país tentam lidar com a nova realidade: menos alunos, menos recursos e mais incerteza para famílias que vivem sob constante temor.


Escolas públicas em diversas regiões dos Estados Unidos estão enfrentando uma queda acentuada na matrícula de estudantes imigrantes — um movimento que tem impacto direto nos orçamentos distritais e força cortes de pessoal e serviços. Educadores relatam que a combinação de deportações, retornos voluntários, mudanças internas no país e, principalmente, a queda no número de novas chegadas ao território americano, tem remodelado a realidade das salas de aula.

A tendência surge em meio à intensificação da fiscalização migratória promovida pelo presidente Donald Trump, que levou muitas famílias a deixarem o país ou a se esconderem. Em Miami-Dade, por exemplo, apenas 2.550 estudantes vindos de outros países entraram no distrito neste ano letivo — número muito inferior aos quase 14 mil do ano anterior e aos mais de 20 mil registrados há dois anos. A redução representou uma perda estimada de US$ 70 milhões no orçamento anual.

Luisa Santos, membro do conselho escolar e ex-estudante imigrante do distrito, classificou o cenário como “uma realidade triste”. Para ela, as escolas públicas que ajudaram a moldar sua vida agora enfrentam um desafio sem precedentes.

 

Impacto em estados de diferentes regiões

Em Albertville, no Alabama, onde cerca de 60% dos alunos se identificam como hispânicos, a queda no número de recém-chegados também tem sido sentida. O superintendente Bart Reeves afirma que a academia para novos estudantes não recebeu nenhuma matrícula neste ano. A previsão é de que a redução na matrícula custe ao distrito cerca de 12 vagas de professores.

Casos de famílias inteiras deixando o país também se tornaram mais frequentes. Em Palm Beach County, na Flórida, uma mãe guatemalteca com sete filhos foi detida enquanto buscava comida para o café da manhã das crianças. A amiga que assumiu temporariamente o cuidado dos menores relatou que, semanas depois, todos embarcaram para a Guatemala para se reunir com a mãe. O distrito já perdeu mais de 6.000 alunos somente em 2025.

 

Escolas de acolhimento também registram retração

A queda no número de recém-chegados também é evidente em distritos historicamente conhecidos por acolher imigrantes. Denver inscreveu apenas 400 estudantes novos no país neste verão, comparado a 1.500 no ano passado. Em Houston, o distrito encerrou as atividades da Las Americas Newcomer School, especializada em receber crianças recém-chegadas, após a matrícula despencar de 111 para apenas 21 estudantes.

Em Chelsea, Massachusetts, um destino frequente para imigrantes centro-americanos e haitianos, a chegada de novos alunos caiu de 592 no verão passado para 152 neste ano. Desde janeiro, 844 estudantes deixaram o distrito — muitos retornando ao país de origem. A presença de agentes do ICE nas ruas, alguns utilizando máscaras, tem intensificado o medo entre as famílias.

 

Preocupações educacionais e sociais

Em San Diego, onde a Perkins K-8 School abrigou dezenas de estudantes que cruzaram a perigosa selva do Darién, o diretor Fernando Hernandez diz que ainda não matriculou nenhum recém-chegado este ano. Para ele, o impacto da queda vai além dos números: afeta a aprendizagem socioemocional.

Hernandez compara o momento aos anos mais duros da pandemia, quando crianças se viram isoladas e privadas de convívio. “Essas crianças precisam estar na escola”, afirma.

Natacha, uma mãe venezuelana que prefere não ser identificada, diz que evita sair em público, mas insiste em manter as filhas na escola. A cada dia, ao buscá-las, dirige observando os retrovisores com medo de estar sendo seguida. “Eu me entrego nas mãos de Deus”, diz.

 

Efeitos a longo prazo

Educadores alertam que a diminuição do número de estudantes imigrantes — que historicamente ajudam a equilibrar matrículas e garantir repasses estaduais — pode deixar lacunas duradouras nos sistemas escolares. Além da perda financeira imediata, há o risco de retrocessos no desenvolvimento social de crianças que antes conviviam com colegas de diferentes origens e culturas.

Enquanto o debate sobre imigração continua acalorado, escolas em todo o país tentam lidar com a nova realidade: menos alunos, menos recursos e mais incerteza para famílias que vivem sob constante temor.

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