Em 1928, quando estradas eram exceção e mapas pouco confiáveis, três brasileiros decidiram enfrentar um desafio que parecia impensável: sair do Rio de Janeiro e chegar aos Estados Unidos de automóvel. A façanha, que levaria dez anos para ser concluída, entrou para a história como a primeira viagem terrestre entre o Brasil e os EUA.
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Conheça a história dos brasileiros que viajaram do Brasil aos EUA de carro em 1928
Em 1928, quando estradas eram exceção e mapas pouco confiáveis, três brasileiros decidiram enfrentar um desafio que parecia impensável: sair do Rio de Janeiro e chegar aos Estados Unidos de automóvel. A façanha, que levaria dez anos para ser concluída, entrou para a história como a primeira viagem terrestre entre o Brasil e os EUA.
A expedição foi protagonizada por Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e pelo mecânico Mário Fava, jovem paulista de Bariri (SP). Anos depois de retornar, Fava resumiria a dimensão da jornada em uma frase que atravessou o tempo: “Mamma, eu não sabia que era tão longe”.
Patrocinada pelo jornal O Globo, a aventura teve início em 16 de abril de 1928, em frente à sede do periódico, no Rio. Os viajantes partiram a bordo de dois Ford T, veículos com apenas 17 cavalos de potência, batizados de Brasil e São Paulo. O plano era cruzar o continente rumo a Nova York — sem imaginar que percorreriam quase 28 mil quilômetros, atravessando 15 países.
Naquele período, a Estrada Panamericana ainda era apenas um projeto, e nem mesmo a ligação rodoviária entre Rio e São Paulo existia. A viagem avançava “do jeito que desse”, enfrentando trilhas improvisadas, selvas fechadas, gelo, desertos e regiões completamente isoladas.
Esquecida por décadas, a saga ganhou nova visibilidade com a criação do Museu Mário Fava, em Bariri, a mais de 300 quilômetros da capital paulista. O espaço preserva a memória da expedição por meio de painéis, fotografias, mapas e, sobretudo, de um Ford T 18 original — o famoso “Ford de Bigode”. O veículo foi fabricado em Detroit, chegou desmontado ao Brasil e foi montado no Rio de Janeiro em 1919.
Além do automóvel, o museu reúne documentos que atestam a originalidade do motor, instrumentos de navegação usados na viagem, como bússola e sextante, ferramentas antigas e uma estátua em tamanho real de Mário Fava. Para o historiador Giovanni Franco, guia do museu, trata-se de um feito que vai além da aventura pessoal. “É uma história pioneira não apenas regional, mas mundial. Fala de logística, de estradas e da ocupação do território”, afirma.
Mário Fava teve papel decisivo no sucesso da empreitada. Foi ele quem assumiu a mecânica após a desistência do profissional anterior, ainda nos primeiros trechos. “Sem o Mário, a viagem não teria sido possível. Ele fazia todos os reparos”, destaca José Augusto Barboza Cava, fundador do museu e filho de um amigo de juventude do mecânico.
Ao longo do percurso, os brasileiros enfrentaram situações extremas. Ficaram quatro meses perdidos na selva colombiana, sobreviveram graças à ajuda de indígenas, cruzaram os Andes três vezes e chegaram a passar meses atravessando trechos congelados da cordilheira. Em uma das crises, sem combustível, improvisaram uma mistura de querosene com chicha, bebida tradicional andina, e usaram gordura animal para evitar danos ao motor.
O trio também viveu momentos de reconhecimento. Foi recebido por presidentes de países da América Latina e, já nos Estados Unidos, participou de um encontro na Casa Branca com o então presidente Franklin Delano Roosevelt, sendo apresentado como representante de setores industriais e acadêmicos.
Para vencer a temida selva de Darién, entre Colômbia e Panamá, os carros precisaram ser desmontados e transportados em balsas de madeira. No México, os aventureiros foram homenageados com festas e cerimônias, embora tenham enfrentado graves problemas de saúde e dificuldades para abrir caminho em regiões montanhosas.
A jornada chegou oficialmente ao fim em 1938. O retorno ao Brasil foi feito de navio, com os dois Ford T a bordo. Em 25 de maio daquele ano, os viajantes desembarcaram no Rio de Janeiro e, dias depois, foram recebidos pelo presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete. Como homenagem, ruas da capital fluminense passaram a levar o nome das cidades natais dos expedicionários.
Hoje, a história daqueles três brasileiros segue viva em Bariri, como símbolo de ousadia, resistência e de uma época em que atravessar um continente exigia coragem, improviso e uma fé inabalável no caminho à frente.
Serviço
Museu Mário Fava
Rua Tiradentes, 410 – Bariri (SP)
Telefone: (14) 3662-8855
Funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 17h; sábados, das 9h às 13h
Entrada paga
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