Há uma frase aparentemente inofensiva que tem sabotado silenciosamente a vida financeira de muitas pessoas: “eu mereço”. Ela surge após uma semana difícil, um dia estressante, uma frustração qualquer.
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Coluna Cataldi: O perigo do “eu mereço”
Há uma frase aparentemente inofensiva que tem sabotado silenciosamente a vida financeira de muitas pessoas: “eu mereço”. Ela surge após uma semana difícil, um dia estressante, uma frustração qualquer. “Eu mereço comer fora.” “Eu mereço comprar isso.” “Eu mereço um agrado.” O problema não está no descanso, no prazer ou no consumo em si. O perigo está no uso automático dessa justificativa como licença permanente para gastar mal e gastar errado.
Grande parte das pessoas não empobrece por falta de renda, mas por falta de consciência. Não é o grande gasto que destrói um orçamento, e sim a soma dos pequenos. É no café diário fora de casa, no delivery recorrente, na compra impulsiva “barata”, no parcelamento desnecessário, que o dinheiro escorre sem ser percebido. Cada decisão isolada parece irrelevante. O conjunto delas é devastador.
O “eu mereço” costuma aparecer justamente onde deveria existir critério. Ele substitui o planejamento pela emoção. Em vez de perguntar “isso cabe no meu orçamento?” ou “isso me aproxima do que eu quero construir?”, a pessoa pergunta apenas “isso me dá prazer agora?”. E quase sempre a resposta é sim. O resultado, no entanto, vem depois: contas acumuladas, ausência de reservas, projetos adiados, sonhos que nunca saem do papel.
Há um autoengano embutido nessa lógica. A pessoa acredita estar se recompensando, quando na verdade está se punindo no médio e longo prazo. Comer fora todos os dias, gastar com bobagens recorrentes ou viver no limite do cartão não é um prêmio. É um custo. Um custo que não aparece de imediato, mas que se manifesta na falta de tranquilidade, na dependência constante do próximo salário, na impossibilidade de investir, poupar ou crescer.
Outro aspecto pouco discutido é o efeito psicológico desse hábito. Quando tudo vira “merecimento”, nada vira conquista. O esforço deixa de ser associado a resultado e passa a ser associado apenas a consumo. Trabalha-se muito, gasta-se tudo e permanece-se no mesmo lugar. A frustração aumenta, o cansaço cresce e o ciclo se repete. O “eu mereço” vira rotina. A prosperidade, não.
Educação financeira não é sobre cortar tudo, viver em privação ou eliminar prazeres. É sobre escolher. É entender que merecer, de verdade, não é gastar sem pensar, mas construir algo que dure. Merecer é ter segurança. É poder dizer não hoje para dizer sim amanhã. É compreender que disciplina não é castigo, é liberdade.
Quem aprende a respeitar o próprio dinheiro aprende, aos poucos, a respeitar o próprio futuro. Porque é de pouco em pouco que se constrói, mas também é de pouco em pouco que se detona. No fim, a pergunta mais honesta não é “eu mereço?”, mas “isso está alinhado com a vida que eu quero ter mas “quanto do meu futuro estou disposto a sacrificar para satisfazer um desejo de agora?
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