Estamos vivendo um tempo em que a verdade parece ter perdido seus contornos mais nítidos. Já não sabemos, com segurança, o que é fato e o que é fabricação. Notícias são divulgadas com rapidez vertiginosa e, quase no mesmo instante, surge a contestação: “é fake news”.
Publicidade
Coluna Debora Corsi: A Mentira Vestida de Verdade
Estamos vivendo um tempo em que a verdade parece ter perdido seus contornos mais nítidos. Já não sabemos, com segurança, o que é fato e o que é fabricação. Notícias são divulgadas com rapidez vertiginosa e, quase no mesmo instante, surge a contestação: “é fake news”. O problema é que a retratação raramente percorre o mesmo caminho da mentira. A inverdade se espalha em proporções gigantescas; e a retratação tardia, não alcança a mesma dimensão.
Nesse cenário, pessoas são ludibriadas, tornam-se vítimas de golpes cada vez mais sofisticados, e a confiança social se dissolve. Instala-se uma dúvida permanente. Não se sabe mais em quem acreditar.
Nas ruas, a aparência também engana. Muitos evitam quem possui um visual considerado “diferente”, supondo perigo onde talvez exista apenas singularidade. Enquanto isso, indivíduos impecavelmente vestidos, conduzindo carros importados e ostentando respeitabilidade, aplicam fraudes sem despertar suspeitas. A perplexidade aumenta quando até mesmo idosos surgem envolvidos em esquemas ilícitos. Afinal, o que é verdade? O que é mentira?
Há uma antiga parábola que ilustra com precisão essa confusão moral e merece reflexão. Ela narra o encontro entre duas personagens: a Mentira, astuta, convida a Verdade para banhar-se no rio. Enquanto a Verdade mergulha, a Mentira rouba suas roupas e vai embora. Ao recusar-se a vestir as roupas da Mentira, a Verdade passa a ser vista nua e feia. A narrativa revela que a verdade, muitas vezes, parece dura, incômoda e difícil de aceitar, enquanto a mentira se disfarça de verdade para ser acolhida com facilidade.
Quando a verdade deixa de ser um valor inegociável, toda a humanidade perde. O mundo parece girar em múltiplas direções ao mesmo tempo. Guerras se espalham, líderes se enfrentam em disputas de poder, e a sensação é de que o planeta pode ser destruído a qualquer instante. No entanto, antes que uma bomba atravesse os céus, uma mentira já foi lançada. E essa mentira, silenciosa e corrosiva, destrói famílias, empresas, reputações e economias.
É assim que se corrói o crédito moral de uma sociedade.
A pergunta que se impõe é inevitável: que tempo estamos vivendo? Quando a honestidade é colocada em xeque, quando a intolerância ganha espaço e quando a empatia deixa de ser prática cotidiana, estamos diante de uma crise que ultrapassa o campo político ou econômico. Trata-se, sobretudo, de uma crise ética.
A Inteligência Artificial é uma ferramenta que veio para somar em inúmeras atividades e facilitar processos. No entanto, também pode ser utilizada para propagar desinformação. Em segundos, criam-se vídeos que simulam a imagem e a voz de outra pessoa com impressionante fidelidade, comprometendo reputações e destruindo trajetórias. Em períodos eleitorais, se não houver vigilância e responsabilidade, muitos poderão ser enganados, enquanto outros serão caluniados.
Essa é uma guerra que precisa ser vencida. E quais são as armas? Responsabilidade, consciência crítica e coragem moral. Cada pessoa que se recusa a compartilhar uma informação sem verificar sua veracidade já está lutando essa batalha. É sabido que “a fofoca termina no ouvido maduro”; da mesma forma, a mentira é estancada no momento em que alguém decide não propagá-la.
Talvez a reconstrução da verdade não dependa apenas de grandes instituições, mas de decisões individuais e silenciosas. A escolha de conferir antes de compartilhar. A disposição de ouvir antes de julgar. A coragem de permanecer íntegro, mesmo quando a desinformação parece mais conveniente.
Porque, no fim, não é apenas a verdade que está em jogo. É o futuro da confiança humana.




