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Revista Brazilian Times # 86
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“Alligator Alcatraz”: Prisões em massa, condições desumanas e a humilhação de imigrantes na Flórida

Em meio aos pântanos do sul da Flórida, um novo símbolo de repressão e desumanidade se ergue: a prisão de imigração em Everglades, apelidada por autoridades republicanas de “Alligator Alcatraz”.

Em meio aos pântanos do sul da Flórida, um novo símbolo de repressão e desumanidade se ergue: a prisão de imigração em Everglades, apelidada por autoridades republicanas de “Alligator Alcatraz”. O local, que abriga cerca de 750 imigrantes, está no centro de uma crise humanitária, política e legal, denunciada por congressistas democratas, jornalistas e advogados de direitos humanos.

No último sábado, dia 12, o congressista democrata Maxwell Frost, o mais jovem da Câmara e o primeiro afro-cubano eleito ao Congresso, liderou uma delegação de parlamentares em uma visita à instalação. O que encontrou, segundo ele, “só pode ser descrito como uma tentativa deliberada de desmoralizar e isolar imigrantes, principalmente latinos e haitianos, sob uma fachada de legalidade”.

“Vi pessoas como eu, da minha idade, atrás das grades. Gritavam por ajuda, suplicavam por contato com a família. Eu vi ali uma estratégia para promover uma limpeza étnica no país”, disse Frost em entrevista ao Democracy Now!.

Sem Acusações, Sem Processo, Sem Voz

Reportagem divulgada pelo Miami Herald revelou que mais de 250 dos detidos na prisão não têm nenhuma acusação criminal ou condenação nos EUA. Muitos estão presos apenas por infrações administrativas de imigração ou por serem passageiros em carros parados pela polícia rodoviária.

“São pessoas com processos legais em andamento, como pedidos de asilo, que estão sendo arbitrariamente detidas”, explica Claire Healy, jornalista investigativa do Herald. “Em alguns casos, suas famílias só descobriram seu paradeiro após publicarmos a lista de nomes dos detidos”.

O governo da Flórida, sob a gestão de Ron DeSantis, mantém a prisão por meio de um contrato sem licitação no valor de US$ 1,1 milhão com a empresa texana IRG Global Emergency Management, que doou US$ 10 mil ao Partido Republicano da Flórida dias antes de ser contratada. O custo total estimado da instalação gira em torno de US$ 608 milhões, parte financiada com verbas federais do programa Shelter and Services da FEMA.

Conduta Privada, Lucro Público

O controle da prisão é, em grande parte, exercido por empresas privadas. Desde os seguranças até os médicos, são funcionários contratados de companhias como Delta Foxtrot Solutions Inc. “Quando tentei conversar com um dos agentes, ele me disse: ‘Sou de uma empresa privada, não sou obrigado a te dar nenhuma informação’, mesmo sendo eu um congressista federal”, relatou Frost.

Segundo o parlamentar, os detidos vivem em condições insalubres: até 32 pessoas por cela, três vasos sanitários — frequentemente quebrados — e água potável que sai do mesmo sistema dos vasos. A comunicação com advogados e familiares é extremamente limitada ou inexistente.

“Os detidos têm direito a um advogado. Mas mesmo eu, como congressista, tive dificuldades em obter informações básicas de contato. O e-mail que recebi para facilitar esse acesso está fora do ar”, denunciou Frost.

DeSantis e o Modelo de Stephen Miller

O projeto da prisão tem como arquiteto político o procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, aliado de DeSantis, apontado como a versão estadual de Stephen Miller — o ex-assessor de Trump e idealizador de políticas anti-imigração durante seu governo. Miller agora promove a replicação do modelo “Alligator Alcatraz” em outros estados republicanos.

Durante uma transmissão recente, Miller fez um apelo direto: “Governadores de estados vermelhos, construam suas próprias instalações. É assim que tiramos os ilegais e os criminosos das ruas”.

O novo projeto de orçamento proposto por Donald Trump inclui US$ 3,5 bilhões em verbas federais para que estados implementem essas prisões privatizadas e localizadas.

Violação Sistemática dos Direitos Humanos

A visita do congressista Frost seguiu-se a uma série de denúncias de violações. Segundo ele, dias antes da chegada da delegação, os detidos receberam comida melhor e puderam tomar banho pela primeira vez — uma tentativa, segundo ele, de mascarar a realidade.

Além disso, o acesso ao sistema de localização online da ICE, que permite que familiares descubram onde seus parentes estão detidos, não mostra nenhuma informação sobre o centro dos Everglades. Isso ocorre, segundo Healy, porque o local é operado pelo estado sob o programa 287(g), que permite que policiais locais ajam como agentes federais de imigração.

“Isso oculta os detidos do radar público, o que é extremamente preocupante. Há casos em que só descobrimos onde a pessoa estava após recebermos um telefonema desesperado dela, do próprio presídio”, disse Healy.

Cinco Mortes na Flórida Apenas em 2025

Somente neste ano, cinco pessoas morreram em centros de detenção imigratória na Flórida — metade do total nacional. Segundo Frost, essas mortes são o retrato de uma política de “crueldade planejada” para forçar detidos a desistirem de lutar por sua permanência legal no país.

“Conheci haitianos que disseram preferir morrer nas ruas do Haiti a passar mais um dia numa cela na Flórida. Essa é a política de imigração que estamos permitindo acontecer neste país?”, questionou o congressista.

Pressão por Encerramento Imediato

Frost e outros legisladores democratas exigem o fechamento imediato da prisão nos Everglades. Mas vão além: pedem revisão geral das políticas de detenção e do uso de empresas privadas na administração do sistema imigratório.

“Alligator Alcatraz não é um ponto fora da curva. É o retrato de um sistema falido e desumano. E precisa acabar”, concluiu o congressista.

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