Desde o retorno de Trump à Casa Branca, o governo implementou uma série de medidas voltadas à redução da imigração legal e ao fortalecimento da fiscalização migratória.
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Cônjuges de cidadãos americanos enfrentam maior rigor no sistema de imigração sob governo Trump
Da Redação
As mudanças promovidas pela administração do presidente Donald Trump na política de imigração dos Estados Unidos passaram a atingir um grupo que, historicamente, gozava de tratamento diferenciado: os cônjuges de cidadãos americanos. Advogados especializados, entidades de defesa dos imigrantes e famílias afetadas afirmam que o endurecimento das regras e da fiscalização tem provocado atrasos em processos, aumento das entrevistas, maior escrutínio das solicitações de residência permanente e até casos de detenções e separações familiares.
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, o governo implementou uma série de medidas voltadas à redução da imigração legal e ao fortalecimento da fiscalização migratória. Entre elas estão a suspensão da emissão de determinados vistos para cidadãos de dezenas de países, a ampliação das verificações durante entrevistas para obtenção do green card, o aumento das investigações sobre os antecedentes dos solicitantes e a expansão do número de pessoas sujeitas à deportação.
Segundo especialistas, essas mudanças também passaram a afetar estrangeiros casados com cidadãos americanos, um grupo que tradicionalmente recebia tratamento privilegiado pela legislação migratória dos Estados Unidos.
Ashley DeAzevedo, diretora executiva da organização American Families United, afirma que o cenário mudou significativamente no último ano. A entidade, que presta apoio a famílias americanas envolvidas em processos de imigração, relata um crescimento expressivo na procura por assistência.
“A vida ficou muito mais difícil para os americanos casados com pessoas que nasceram fora dos Estados Unidos”, afirmou DeAzevedo em entrevista à NPR.
De acordo com ela, muitas famílias passaram a viver sob constante insegurança jurídica. Alguns casais optaram por deixar voluntariamente o país por medo de detenções prolongadas, enquanto outros enfrentaram a prisão de seus cônjuges durante processos migratórios — situação considerada incomum em administrações anteriores.
Grupo antes protegido pela legislação
Especialistas lembram que a legislação americana sempre concedeu benefícios específicos aos cônjuges de cidadãos dos Estados Unidos.
Sharvari Dalal-Dheini, diretora de Relações Governamentais da American Immigration Lawyers Association (AILA), explica que esses imigrantes não estão sujeitos aos limites anuais de vistos aplicados a outras categorias familiares e, em muitos casos, podem solicitar o ajuste de status mesmo sem manter situação migratória regular.
“A lei sempre tratou os cônjuges de cidadãos americanos como uma categoria privilegiada. Porém, esta administração passou a tratá-los como qualquer outro imigrante”, afirmou.
Apesar disso, o governo Trump sustenta que apenas está aplicando rigorosamente a legislação existente.
Em nota enviada à NPR, o porta-voz do U.S. Citizenship and Immigration Services (USCIS), Zach Kahler, afirmou que todos os pedidos de benefícios migratórios devem passar por verificações rigorosas de identidade, antecedentes e histórico pessoal.
Segundo o USCIS, o simples fato de uma pessoa ser casada com um cidadão americano ou possuir uma petição familiar aprovada não impede que ela seja alvo de medidas de fiscalização migratória.
“O envio ou aprovação do formulário I-130 não concede status imigratório. Todos os estrangeiros devem cumprir as leis de imigração dos Estados Unidos”, afirmou Kahler.
Casamentos representam uma das principais portas de entrada para o green card
Dados mais recentes do Departamento de Segurança Interna (DHS), referentes a 2024, mostram que aproximadamente 343 mil pessoas obtiveram o green card por meio do casamento com cidadãos americanos, o equivalente a cerca de um quarto de todas as residências permanentes concedidas naquele ano.
Quando também são considerados pais e filhos patrocinados por cidadãos americanos, esse número praticamente dobra, demonstrando a importância da reunificação familiar dentro do sistema migratório dos Estados Unidos.
No primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, foram aprovadas 167.401 petições para familiares imediatos e 8.612 petições de noivos(as).
Os tempos médios de processamento permanecem próximos dos registrados antes das mudanças implementadas pela atual administração: cerca de 13 meses para familiares e sete meses para vistos de noivos(as). No entanto, advogados afirmam que o maior rigor das análises tem tornado muitos processos mais complexos.
Casos de famílias militares também são afetados
As novas políticas também atingem famílias de militares americanos.
Uma residente permanente legal, identificada apenas como “Es”, relatou à NPR que seu pedido de cidadania permanece parado desde o ano passado por ter nascido em um dos países incluídos nas restrições migratórias impostas pelo governo.
Casada com um integrante do Exército dos Estados Unidos, ela afirma que a família precisou adiar uma transferência militar para a Alemanha enquanto aguarda uma definição sobre seu processo.
Segundo ela, a situação gera incertezas sobre moradia, viagens, documentação dos filhos e até sobre a preparação operacional do marido para o serviço militar.
“Isso não está afetando apenas pessoas que fizeram algo errado. Está afetando todo mundo”, declarou.
Embora um juiz federal tenha considerado ilegal parte da suspensão dos processos envolvendo determinados países, muitos casos continuam sem solução definitiva.
Mais entrevistas e maior fiscalização
Advogados de imigração afirmam que o USCIS passou a realizar um número maior de entrevistas presenciais e solicitar documentação adicional para comprovação da chamada “boa conduta moral”, além de informações que anteriormente não eram exigidas em muitos processos baseados em casamento.
O advogado Eric Welsh, especialista em imigração na Califórnia, afirma que muitos cidadãos americanos desconhecem que o casamento, por si só, não garante ao cônjuge estrangeiro o direito de permanecer legalmente nos Estados Unidos.
“Não existe um direito absoluto ao ajuste de status nem à obtenção da residência permanente apenas por estar casado com um cidadão americano”, explicou.
Segundo ele, o aumento da fiscalização tem levado diversas famílias a adiar ou até desistir temporariamente de iniciar processos migratórios por receio de consequências como detenções ou deportações.
Clima de insegurança
Organizações que atuam na defesa de famílias binacionais afirmam que o conjunto de mudanças implementadas pelo governo Trump criou um ambiente de insegurança para milhares de casais.
Além das verificações mais rigorosas, defensores dos imigrantes apontam que o temor de ações de fiscalização tem reduzido a disposição de muitas pessoas em buscar a regularização migratória, justamente por receio de que o contato com as autoridades possa resultar em medidas de deportação.
Embora o governo sustente que todas as medidas visam reforçar a segurança nacional e garantir o cumprimento das leis de imigração, especialistas alertam que o novo cenário tem produzido impactos significativos sobre famílias formadas por cidadãos americanos e seus cônjuges estrangeiros, reacendendo o debate sobre os limites da política migratória adotada pela atual administração.
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