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Revista Brazilian Times # 86
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Estudantes da Universidade de Connecticut vivem clima de medo com intensificação das deportações nos EUA

Para muitos estudantes da universidade, o debate sobre imigração deixou de ser apenas político e se tornou uma realidade cotidiana marcada por medo, vigilância constante e incerteza sobre o futuro.


Estudantes da University of Connecticut (UConn) que pertencem a famílias imigrantes afirmam estar vivendo um período de ansiedade e incerteza diante da intensificação das políticas de deportação promovidas pelo governo do presidente Donald Trump. A nova estratégia federal prevê ampliar operações de imigração com a meta de deportar até 1 milhão de pessoas por ano, segundo autoridades do governo.

No campus da universidade, estudantes relatam que o aumento das operações do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) tem provocado medo constante entre jovens cujas famílias vivem nos Estados Unidos sem documentação regular.

Alguns alunos afirmam que passaram a evitar viagens, manter contato frequente com familiares e acompanhar de perto mudanças nas políticas migratórias, temendo detenções inesperadas. Entre os estudantes afetados está Emerson Zecena, cofundador do capítulo da organização Connecticut Students for a Dream na UConn. Filho de uma imigrante guatemalteca, ele diz que vive preocupado com a segurança da mãe.

“É triste ter que pensar que, se minha mãe não responde uma mensagem, talvez tenha sido detida ou parada pela polícia e esteja sendo processada para deportação”, afirmou.

Zecena conta que envia mensagens para a mãe constantemente e sente pânico quando não recebe resposta imediata. Diante do clima de apreensão, ele ajudou a organizar no campus uma apresentação sobre “Conheça seus direitos”, conduzida por advogados que explicaram aspectos da legislação migratória e orientaram estudantes sobre como agir em abordagens de agentes federais.

Durante a apresentação, advogados explicaram pontos da chamada Laken Riley Act, aprovada no início de 2025. A lei estabelece regras mais rígidas para detenção de imigrantes sem documentação que sejam acusados ou admitam envolvimento em crimes como furto em lojas, arrombamento, agressão a policiais ou outros delitos graves. Segundo especialistas, a legislação pode dificultar a concessão de fiança para imigrantes detidos, mesmo em casos em que as acusações sejam posteriormente retiradas.

Outro evento no campus, chamado “Migrant Teach-In”, reuniu estudantes e líderes religiosos para discutir direitos constitucionais e experiências de imigrantes detidos. A irmã Mary Jude Lazarus, diretora do Escritório para Ministério Hispânico da Diocese de Norwich, relatou o caso de um imigrante guatemalteco que permaneceu cinco meses detido pelo ICE após confirmar a identidade de um parente procurado por agentes federais. Grupos estudantis como UndocuHuskies, que representa estudantes sem documentação na universidade, também passaram a questionar a administração sobre a existência de espaços seguros no campus.

No primeiro dia do novo mandato de Trump, o Departamento de Segurança Interna revogou diretrizes da era Biden que restringiam ações de imigração em chamados “locais sensíveis”, como escolas, hospitais e universidades. Em comunicado divulgado em janeiro de 2025, a administração da UConn informou que a polícia universitária não questiona estudantes sobre status migratório e não realiza detenções baseadas apenas na suspeita de que alguém esteja no país sem documentação.

A universidade também ressaltou que, de acordo com a lei federal de privacidade educacional, conhecida como FERPA, não pode compartilhar informações sobre horários de aula ou localização de estudantes. Agentes federais também não podem entrar em espaços privados do campus sem um mandado judicial, como dormitórios estudantis, escritórios de professores ou áreas clínicas.

Mesmo assim, organizações estudantis afirmam que passaram a ter mais cautela ao divulgar atividades. “Não sabemos quem pode ter intenções prejudiciais. Precisamos garantir que nossos encontros ocorram em locais onde os estudantes estejam protegidos”, disse Aleena Chaudry, copresidente do grupo UndocuHuskies. A universidade também criou um portal protegido por senha para membros do comitê consultivo de estudantes indocumentados, após preocupações de professores e alunos sobre a divulgação pública de seus nomes.

Para muitos estudantes, o impacto das políticas migratórias é direto e pessoal. Uma aluna de enfermagem identificada apenas como Giselle disse temer que seus pais — imigrantes do Peru e do Equador — sejam deportados. Segundo ela, o medo tem feito com que os pais evitem sair de casa. “Eles têm medo de ir ao mercado ou até de buscar meu irmão. Às vezes, a única saída é passar no drive-thru e voltar direto para casa”, contou. Já Ryan, estudante brasileiro e integrante do grupo UndocuHuskies, afirma que sua maior preocupação é com o pai, que vive há duas décadas nos Estados Unidos e trabalhou em diversas áreas, incluindo construção civil e contabilidade.

“Ele sempre trabalhou duro e pagou impostos. Eu não gostaria que todo esse esforço fosse simplesmente perdido”, disse. O clima de incerteza também afeta estudantes internacionais. Sophie, refugiada da Ucrânia, disse que cancelou uma viagem para visitar familiares na Europa por medo de não conseguir retornar aos Estados Unidos. “Se eu sair do país, preciso estar preparada para não voltar. É muito difícil viver aqui sem saber quando poderei ver minha família novamente”, afirmou.

Para muitos estudantes da universidade, o debate sobre imigração deixou de ser apenas político e se tornou uma realidade cotidiana marcada por medo, vigilância constante e incerteza sobre o futuro.

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