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Revista Brazilian Times # 86
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Idoso nascido em campo de refugiados é detido pelo ICE após sete décadas vivendo nos EUA

O casal chegou a viajar para o Canadá e para o México nos anos 1980, cruzando fronteiras sem questionamentos, o que Bojerski e seu advogado consideram prova de que a antiga ordem de deportação teria sido invalidada. A imigração, porém, não aceitou esse argumento. Em 2010, ele recebeu uma nova ordem de supervisão, cumprida à risca até este ano.


Um avô que reside na Flórida e vive há mais de 70 anos nos Estados Unidos foi detido pelo Departamento de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, sigla em inglês), reacendendo debates sobre deportações antigas e lacunas legais envolvendo imigrantes que permaneceram no país por décadas.

Paul John Bojerski, 79, nasceu em 1946 em um campo de refugiados na Alemanha, filho de pais poloneses deslocados após a Segunda Guerra Mundial. A família imigrou legalmente para os EUA em 1952, quando ele tinha cinco anos. Mesmo assim, Bojerski — que nunca obteve cidadania americana — viveu toda a vida como um “homem sem país”.

O caso veio à tona no final de outubro, quando Bojerski, residente de Sanford, foi detido durante uma visita de rotina a um escritório do ICE. A agência decidiu executar uma antiga ordem de deportação, emitida em 1968, mas nunca cumprida porque tanto a Polônia comunista quanto a Alemanha Ocidental se recusaram a recebê-lo.

Condição de saúde e detenção contestada pela família

Após ser levado inicialmente para o centro de detenção conhecido como Alligator Alcatraz, nos Everglades, Bojerski foi transferido para o Krome Detention Center, em Miami. A família afirma que sua saúde se deteriorou rapidamente: ele passou a usar cadeira de rodas, perdeu acesso a medicamentos regulares e teria sofrido quedas e maus-tratos, incluindo hematomas atribuídos a agentes penitenciários.

“É devastador”, disse sua enteada, Sandy Adams, de 57 anos. Sua mãe, Gayle Bojerski, de 82, esposa do detido há 37 anos, também está emocionalmente abalada. “Ele saiu da sala e disse: ‘Eles vão me deportar’. Eu desmoronei”, lembrou.

Advogados e familiares relatam que Bojerski perdeu procedimentos médicos programados e que os detentos no centro enfrentam condições consideradas “desumanas”, como comida estragada, falta de atendimento médico e banheiros precários — denúncias que autoridades estaduais contestam.

Um passado complexo e tentativas frustradas de regularização

Documentos do extinto Immigration and Naturalization Service (INS) mostram que Bojerski entrou nos EUA como residente legal em 1952, amparado pelo Displaced Persons Act de 1948. No entanto, dois crimes cometidos na juventude — larcenato em 1966 e recepção de bens roubados em 1967 — levaram à ordem de deportação.

Sem país disposto a recebê-lo, ele foi liberado e seguiu vivendo nos EUA, sempre se apresentando às autoridades quando requisitado. Em 1972, ele foi condenado por estupro, caso que ele e a esposa afirmam ter sido resultado de uma acusação coletiva em uma festa universitária. Após cumprir a pena, Bojerski reconstruiu a vida: formou-se, tornou-se óptico e trabalhou mais de 30 anos na mesma empresa.

O casal chegou a viajar para o Canadá e para o México nos anos 1980, cruzando fronteiras sem questionamentos, o que Bojerski e seu advogado consideram prova de que a antiga ordem de deportação teria sido invalidada. A imigração, porém, não aceitou esse argumento. Em 2010, ele recebeu uma nova ordem de supervisão, cumprida à risca até este ano.

 

Deportação após 70 anos nos EUA

Segundo a família, o ICE informou em julho que, se ele não deixasse o país voluntariamente, seria deportado. Ele deveria apresentar passagens em 30 de outubro, mas não conseguiu — não possui passaporte, nem país de destino reconhecido. Ao comparecer ao escritório do ICE na data marcada, acabou detido imediatamente.

A defesa tenta reverter a prisão, enquanto o caso gera repercussão por seu caráter incomum. “É o mais estranho que já vi em 30 anos”, afirmou David Stoller, seu advogado.

No dia 18 de novembro, Bojerski terá uma audiência de fiança. Sua família teme que ele não sobreviva à detenção. “Cada vez que ele liga, pergunta de todos nós primeiro”, contou Adams.

Para Gayle, o governo deveria priorizar “os criminosos violentos — traficantes e pessoas realmente perigosas”. “Meu marido não é esse tipo de pessoa. Ele sempre fez tudo o que pediram”, disse.

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