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Revista Brazilian Times # 86
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Imigrantes em Massachusetts preparam documentos de tutela para proteger filhos diante do avanço das detenções do ICE

O clima de apreensão entre imigrantes em Massachusetts tem levado muitas famílias a tomar medidas emergenciais para garantir a proteção de seus filhos caso sejam detidas por agentes do Departamento de Imigração (ICE, sigla em inglês). Entre elas está Debora Ramirez, que chegou ao estado há mais de 20 anos, fugindo da violência na Guatemala. Hoje, vivendo em New Bedford, ela decidiu preparar documentos de tutela que permitam que sua filha mais velha assuma o cuidado das irmãs menores se ela ou o parceiro forem detidos.

O clima de apreensão entre imigrantes em Massachusetts tem levado muitas famílias a tomar medidas emergenciais para garantir a proteção de seus filhos caso sejam detidas por agentes do Departamento de Imigração (ICE, sigla em inglês). Entre elas está Debora Ramirez, que chegou ao estado há mais de 20 anos, fugindo da violência na Guatemala. Hoje, vivendo em New Bedford, ela decidiu preparar documentos de tutela que permitam que sua filha mais velha assuma o cuidado das irmãs menores se ela ou o parceiro forem detidos.

“Ver a situação piorando dia após dia me obrigou a tomar essa decisão”, disse Ramirez, emocionada. “Como mãe, isso dói profundamente. É como abrir mão de um pedaço de você.”

Ela está longe de ser a única. Organizações comunitárias, advogados e até autoridades municipais vêm registrando um aumento expressivo no número de famílias que buscam documentos legais para evitar que crianças fiquem desamparadas em caso de detenção dos pais. Especialistas chamam essa preparação de “separação familiar de fato”, já que muitos pais, mesmo sem deportação iminente, passam a se planejar para uma possível ruptura.

Rebecca Greening, codiretora da Family Justice Clinic da Harvard Law School, lembra que a prática remete ao trauma vivido durante a política de separação de famílias na fronteira implementada pelo governo Donald Trump. “Agora, estão detendo pais e cuidadores”, afirmou.

Três caminhos possíveis para proteger as crianças

Advogados vêm orientando famílias de status migratório misto a estabelecer planos claros sobre o que acontecerá com as crianças caso um dos pais seja levado pela imigração. As opções variam em complexidade:

– Affidavit de Autorização de Cuidador
É o documento mais simples e o mais recomendado por especialistas. Permite que um adulto indicado tome decisões escolares e médicas por até dois anos, sem precisar passar pelo tribunal. Foi esse o caminho escolhido por Ramirez.

– Autorização Temporária de Agente
Concede autoridade mais ampla — quase como a de um pai — por 60 dias, podendo ser renovada. Não exige que o responsável viva com a criança, mas também dispensa processo judicial.

– Tutela Legal via tribunal
É o procedimento mais robusto e duradouro, porém envolve custos e burocracia. Pode ser temporária (10 dias a 3 meses) ou permanente por até um ano. Muitas famílias optam por essa alternativa quando já sabem que um dos pais terá de deixar o país.

Demanda cresce com aumento de detenções

Organizações como o Community Economic Development Center, em New Bedford, já ajudaram mais de 60 famílias a preparar seus documentos. “Existe um sentimento de urgência maior”, disse a diretora Corinn Williams. “Quando a família toma essa decisão, ela retoma um pouco o controle dessa situação tão difícil.”

Em Chelsea, mutirões organizados pela La Colaborativa e pela Lawyers for Civil Rights já auxiliaram dezenas de famílias. Advogados relatam que para imigrantes recém-chegados ou com poucos vínculos locais, a maior dificuldade é escolher alguém de confiança para assumir o papel de cuidador.

Até o Boston Medical Center passou a distribuir kits de preparação familiar, com formulários e orientações sobre como conversar com crianças de diferentes idades sobre a possível separação.

Escolas entram na linha de frente

Brockton é uma das cidades com maior impacto. Segundo Courtney Henderson, ex-diretora de assuntos imigratórios do gabinete do prefeito, houve casos recentes em que pais detidos deixaram crianças sem ninguém para recorrer. “Nosso objetivo é evitar que essas crianças caiam na custódia do estado”, afirmou.

A rede pública da cidade mobilizou defensores bilíngues e manteve documentos de tutela disponíveis nas escolas — uma medida incomum, mas considerada necessária. A Harvard Family Justice Clinic ajudou a preparar pelo menos 30 desses processos.

Medo constante, futuro incerto

Ramirez, que já levou a filha mais velha a reuniões escolares para facilitar a comunicação, acredita que sua família está mais preparada, mas o medo permanece. Ela concluiu os documentos antes de um recente check-in com o ICE e se sentiu aliviada ao voltar para casa. Ainda assim, teme ser obrigada a retornar à Guatemala, onde a violência, segundo familiares, está pior do que quando ela fugiu.

“Quero estar com minhas filhas enquanto crescem”, disse. “Esses documentos ao menos me dão algum controle sobre o futuro.”

Para ela, o caso é coletivo: “Todas nós, mães imigrantes, carregamos o mesmo terror e a mesma esperança. É uma decisão dolorosa, mas necessária.”

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