Para Jacqueline, cada consulta é uma mistura de esperança e temor. “Se meu marido estivesse aqui, estaria comigo no hospital”, disse, enquanto embalava o filho recém-nascido. “Agora, só espero poder cuidar dele em paz.”
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Medo do ICE coloca em risco a vida de imigrantes grávidas e de seus bebês nos Estados Unidos
O medo da deportação tem levado mulheres imigrantes grávidas a evitar hospitais e consultas médicas em várias partes dos Estados Unidos. A intensificação das ações do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, sigla em inglês) durante o governo do presidente Donald Trump tem provocado uma crise silenciosa na saúde pública, com consequências graves para mães e bebês.
Uma imigrante da Guatemala que vive na Flórida há uma década, é um exemplo desse drama. Grávida do segundo filho, ela viu sua vida mudar depois que o marido foi deportado por dirigir sem habilitação. Sozinha, sem transporte e com uma filha de oito anos, ela passou a viver com medo de sair de casa — até para consultas médicas. “Ele era quem sustentava a casa e cuidava de tudo. Agora tenho medo até de ir ao hospital”, contou. Uma pequena organização sem fins lucrativos tem custeado corridas de Uber para que ela consiga comparecer às consultas pré-natais.
Casos como o dela se multiplicam pelo país. Médicos e doulas relatam que muitas gestantes imigrantes estão desistindo do acompanhamento médico por receio de encontrarem agentes de imigração em clínicas e hospitais — locais que, até recentemente, eram considerados “zonas seguras”. A situação se agravou após Trump revogar uma diretriz federal que impedia o ICE de realizar operações em ambientes de saúde.
A consequência é o aumento de complicações e mortes evitáveis. Profissionais de saúde relatam crescimento de partos prematuros, cesarianas de emergência e casos graves de hipertensão e diabetes gestacional não diagnosticadas.
“Esse medo está afastando as mulheres dos sistemas criados para protegê-las”, afirma a obstetra Josie Urbina, de São Francisco (Califórnia). “Estamos vendo resultados devastadores.”
Estudos apontam que bebês nascidos de mães que não recebem cuidados pré-natais têm cinco vezes mais chances de morrer e três vezes mais probabilidade de nascer com baixo peso. Ainda assim, muitas imigrantes preferem arriscar um parto em casa a enfrentar o medo de serem presas.
Embora a atual administração mantenha uma diretriz que recomenda ao ICE não deter grávidas, relatos de prisões e maus-tratos continuam surgindo. Um relatório do Senado americano descreve mulheres grávidas dormindo no chão de centros de detenção, sofrendo abortos sem atendimento e esperando semanas por uma consulta médica.
Todos os anos, cerca de 250 mil bebês nascem de mães sem status imigratório legal nos Estados Unidos. Especialistas alertam que o aumento da repressão e o clima de medo podem agravar as taxas de mortalidade materna e infantil, especialmente entre famílias latinas.
Para Jacqueline, cada consulta é uma mistura de esperança e temor. “Se meu marido estivesse aqui, estaria comigo no hospital”, disse, enquanto embalava o filho recém-nascido. “Agora, só espero poder cuidar dele em paz.”
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